sábado, 15 de dezembro de 2007

Ócio Criativo

Estava eu aborrecido executando uma tarefa tediosa quando, num devanear repentino, questionei-me se eu deveria realmente dedicar o meu tempo em algo que não me causa prazer. E, ao dizer para mim mesmo tais palavras, alguns questionamentos me fulminaram; meu alter ego, aproveitando-se da situação, fixou-se num deles e assim me sussurrou:



Por que o tipo homem trabalha, hoje, da mesma forma como trabalhava há 50 anos, se houve uma drástica mudança nos instrumentos disponíveis para a realização de tarefas, e o esforço repetitivo é realizado, em grande parte, por máquinas? Por quê, após aparente triunfo tecnológico, não me é possível fazer simplesmente aquilo que eu desejar e que, por extensão, me proporcione prazer?

Suponho que temos uma grande dificuldade em aceitar o prazer como justificativa fundamental para a existência humana. Talvez seja a herança de uma (des)cultura cristã de séculos de estupidez e contra-senso ao terreno: porque, em verdade, foi contra o prazer e a vontade que as religiões, entre elas inclusive o budismo num nível mais intelectual, e o cristianismo, num nível mais boçal, envenenaram o coração do homem a ponto tal de sequer conseguir desejar ter prazer! É mais fácil dominar quando não há vontade; é mais fácil dominar o inimigo quando está fraco e entediado. E esta é a fórmula humana para a desgraça e mentiras que foram contadas ao longo de séculos por sujeitos entorpecidos contra a vida e tudo que é mundano.

Tudo deveria se justificar pelo prazer, seja ele físico, emocional, intelectual e inclusive sexual. Tudo que, ao ser feito, proporcione uma sensação de bem-estar ímpar a tal ponto que a vontade em reviver tais momentos seja tão forte que forneça a justificativa existencial para um possível eterno retornar.

E, ao pensar neste estado de coisas, lembrei-me das idéias do sociólogo Domenico De Masi, que se tornou conhecido mundialmente ao propor o que ele chamou de ócio criativo, que é uma maneira de encarar o trabalho e o prazer como coisas tão próximas de si que o sujeito não saiba mais diferenciar interesses pessoais de interesses profissionais. Tal situação só é possível com a substituição do controle pela motivação dos funcionários. Segundo o próprio De Masi, poucas, ou raras empresas, conseguem aderir ao ideal de criatividade através do ócio. Uma entrevista interessante, na qual De Masi expõe suas idéias, pode ser encontrada aqui.

Sinto-me frustrado por viver numa época com todas as possibilidades imagináveis disponíveis e uma forma retrograda de se pensar o trabalho. Mecanismos de controle como cartão ponto, carga horária e banco de horas certamente não são compatíveis com o ideal do ócio criativo. Porque, ao que me parece, é impossível pré-determinar logicamente um processo criativo que é ilógico por definição e, não raro, anárquico.


Quisera eu que as idéias próprias e instigantes fossem louvadas e celebradas!

Quisera eu que a postura crítica e autocrítica fosse condição sine que non, tanto nas pequenas, médias e grandes empresas!

Quisera eu que para fazer parte do clube da gravata não fosse necessário, após um cumprimento com sorriso falso, esfaquear o outro pelas costas!

Quisera eu que a motivação subjugasse o controle!

Quisera eu poder trabalhar exatamente da mesma maneira como brincava na mais longínqua infância! E que o ideal lúdico pudesse transcender aos pseudo-valores ordinários e mesquinhos, cuja impregnação grita e fede no ignorante tipo homem e sua bestial noção utilitarista do estar-vivo.

Namaste!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Dossiê Virtual

Estava eu a navegar na grande rede quando avistei um iceberg e um devanear me ocorreu: como, hoje, somos dependentes da tecnologia que criamos. E como isso está escravizando o tipo homem. Pois, a promessa de que, ao ter máquinas e computadores que fizessem o trabalho sujo, o ser humano poderia dedicar-se a coisas mais nobres em sua existência, além do trabalho forçado e servil, parece-me que houve o efeito inverso. Trabalha-se cada vez mais em coisas como soluções e avanços tecnológicos, em nome única e exclusivamente de aumentar o lucro dos cães que governam as maiores corporações mundiais. A justificativa é o lucro? Tudo se explica pelo lucro, tudo é aceito pelo lucro... E a mais-valia de Marx jamais, em toda a história do homem, esteve num nível de discrepância tão alto.

Pensando nisso, há uma deturpação do conceito de evolução biológica: vendem a idéia de que o computador de última geração é a solução para todos os males do mundo! E que, o último sistema operacional lançado pela empresa do poderoso nerd de Redmond é algo inovador e espetacular! E que as ovelhas devem correr para atualizá-lo e, assim, acompanhar a evolução tecnológica, cujo ideal eu me questiono e ponho-me a pensar e aí muito louquejares ocorrem... Afinal, em nome de que ou quem ou o que seja a humanidade tem pressa e sede de velocidade e busca a todo custo avançar a um patamar superior, se há uma total carência de valores dignos que justificassem tal delírio estritamente comercial? Antes, não houvesse essa suposta evolução: ao menos haveria tempo para o cruel tipo homem pensar em si e olhar-se à distância, de modo a perceber a estupidez de sua existência, e ainda mais de seus pseudo-valores sobre o estar-vivo.

E, pensando em todo este estado de coisas, percebi que uma entre as empresas que valem mais que muitos países aparentemente tem uma visão diferente e oferece muitos serviços que agregam valor, como é bonito falar, gratuitamente. O chá aqui serviço neste espaço de voyeurismo pós-moderno só existe da forma como está apresentado porque tal empresa disponibiliza esse serviço. Além deste, vários outros, como correio eletrônico, agenda, central de relacionamentos, bloco de notas, fotos, documentos e vídeos online. Sem contar com o buscador de palavras, que na sociedade contemporânea representa o portal do conhecimento de tudo que há. E tudo isso gratuitamente, aparentemente sob a roupagem de empresa inovadora, que busca resgatar o espírito inocente do período pré-porcos da grande rede. Ao que meu alter ego questiona: isso é compatível com o espírito canino que reina no mundo, hoje?

Uma possível resposta pode ser obtida através do termo de uso do Google Mail (no original, em inglês):
Privacy. As a condition to using the Service, you agree to the terms of the Gmail Privacy Policy as it may be updated from time to time. Google understands that privacy is important to you. "You do, however, agree that Google may monitor, edit or disclose your personal information, including the content of your emails, if required to do so in order to comply with any valid legal process or governmental request" (such as a search warrant, subpoena, statute, or court order), or as otherwise provided in these Terms of Use and the Gmail Privacy Policy. Personal information collected by Google may be stored and processed in the United States or any other country in which Google Inc. or its agents maintain facilities. By using Gmail, you consent to any such transfer of information outside of your country.

É impossível não sentir um certo arrepio ao ler tais palavras. Imagina-te, caro leitor, como é fácil descobrir tudo sobre a vossa pessoa: toda a tua correspondência virtual, o teu ciclo de amizades e comunidades, a tua agenda pessoal, as tuas fotos, os teus vídeos, bem como tudo que procurares no oráculo da grande rede. E tudo isso é oferecido de graça para ti! No entanto, a qualquer momento, tais informações podem (e serão) usadas contra ti, caso algum representante do Monstro Frio julgue necessário. E ainda existem aqueles que se expõe cruelmente na grande rede, fornecendo ao mundo os pequenos detalhes de sua existência bestial...

O público e o privado possuem, hoje, uma tênue fronteira e é preciso estar atento, pois nunca a condenação à liberdade (como louquejou Sartre), com todos os apelos que o Grande Oráculo oferece, foi tão verdadeira. E por mais que idolatrem a sociedade democrática e sua suposta liberdade, parece-me cada vez mais verdadeiro que a natureza pervertida do homo sapiens sapiens tenda à selvageria numa busca boçal por velocidade, produção e inovação: falsas palavras que não ajudam a elevar o tipo homem a um estágio que se poderia considerar digno após 3 mil anos de evolução.

Namaste!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Suspiros Poéticos

Numa manhã destas, entre o primeiro o segundo cigarro do dia, escutei uma imbecilidade de um pseudo-comunicador, fiquei estarrecido e, em seguida, um devanear me ocorreu. O assunto em discussão era a hábito de fumar e foi utilizada a morte do ator Paulo Autran como referência de como o cigarro é prejudicial à saúde. Afinal, foi o cigarro que matou Autran, que fumava visceralmente, assim argumentou o boçal. Ao que me questionei: mas ele não estava com 85 anos ao falecer?! Quer dizer se que não tivesse fumado... poderia ter vivido até aos 100? E, supondo que isso fosse possível, dentro dessa lógica tão linear que chega a ser absurda, no que isso representaria um benefício tangível? Será que quem vive muito tempo não irá morrer igualmente? Tolices do tipo homem...

A sociedade, hoje, está cada vez mais reacionária e intolerante. Fruto, talvez, da demasiada influência estadunidense, que é possivelmente o povo que mais restrige o cigarro. Aliás, por que não proíbem também o estilo de alimentação fast trash food, que produz muito mais doenças que o cigarro, numa sociedade tipicamente obesa e que encara a alimentação como qualquer outro delírio consumista? E não apenas em relação ao fumo, mas em vários outros aspectos. Nós, fumantes, somos tidos como sujeitos anti-sociais, verdadeiros suicidas que precisam ser reprimidos como se fumar fosse uma acção terrorista! Se os invejosos e ávidos por viver muito tempo (como se isso fizesse algum sentido) direcionassem seus esforços no combate à poluição, por exemplo, talvez não estivéssemos enfrentando tantos problemas relativamente às mudanças climáticas. O que vejo, porém, é uma aversão ao prazer mundano, ainda que este acompanhe efeitos colaterais indesejáveis. Como se fosse possível ver um abismo e fingir que nada se viu...

Em outro momento, li uma reportagem que tinha como base uma pesquisa, na qual renomeados pesquisadores sustentavam que a quantidade de cigarros consumidos não alterava o malefício causado. Isto é, se o sujeito fumar 6 ou 60 cigarros diários, isso não fará diferença! É preciso uma dose cavalar de estupidez para sustentar tal suposição. Como se sabe, manipular dados estaticamente é um arte que nos diz a verdade que se deseja obter. O equilíbrio, como em tudo no estar-vivo, é necessário para uma vida harmoniosa e próspera. E, certamente, não serão alguns suspiros poéticos que causarão uma diferença significativa neste estado de coisas.

Um dos maiores poetas do Impávido Colosso, Mário Quintana, fumou e idolatrou o cigarro durante toda a sua vida (e morreu aos 88 anos... se não tivesse fumado, quem sabe não chegaria aos 120?). O pequeno poema que sugere cautela aos fumantes, além de ser uma celebração ao cigarro, é também uma visão pueril e suave da arte de fumar. E, a tal vida interior e sentimentos que só os fumantes possuem, como sugere Quintana, vai muito além do cigarro: pois o que menos parece fazer sentido na sociedade contemporânea é o suspirar, o refletir e o pensar. Meu alter ego acredita que o chá com pimenta aqui servido não seria o mesmo sem a inspiradora fumaça que exala do cigarro dos que têm vida interior, a qual transcende a visão utilitarista de mundo a qual estamos submetidos.

Namaste!

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Arte de Fumar


Desconfia dos que não fumam:


esses não têm vida interior, não têm sentimentos.


O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar...


Mário Quintana

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Contradição Canina

Num dia desses, em que até respirar parece cansar, o ordenador temporal quase marcava cinco da tarde quando ao reler os louquejares deste espaço de vouyerismo pós-moderno percebi uma contradição latente. E, pior, uma contradição canina! Na verdade, para o meu alter ego tal situação não se constitui numa contradição em si. É que, para ele, os personagens podem ter comportamentos diferentes e contraditórios. Até mesmo os cães.

Pois seja: há vários posts que relatam a felicidade como uma característica quase inacta dos cachorros. Meu alter ego inclusive recomenda que vossa mercê, inestimável leitor, torne-se um cachorro para atingir o ideal de felicidade, que tanto o tipo homem almeja. Em outros, que se utilizam das idéias contidas em Da Musicalidade do Leão, no qual a figura utilizada do cão é a mesma da Revolução dos Bichos, onde o cão corresponde ao típico homem de negócios, megalomaníaco e ávido por lucro acima de tudo. Tal imagem, suponho, arruína e envergonha a própria imagem canina que os cachorros inactamente possuem. De qualquer forma, como supor que um tipo dócil, submisso e bestial transforme-se num animal agressivo e selvagem? O que ocorre, pois, com o tipo cão para transformar-se de tal forma?

Na verdade, tal situação ocorre, louquejo eu, porque ao domesticar o tipo canino, e em muitos casos transformá-lo num cão de guarda, instintivamente o cão revolta-se e passa a agir conforme o que lhe exibido pelo seu dono. O que significa agir de acordo com o que lhe é apresentado pelo cruel tipo homem. Nesse sentido, os cães carecem de personalidade, ao contrário dos gatos. Sim, os felinos... Esses merecem um devanear próprio, pois representam a verdadeira inteligência, perspicácia e modo de viver ímpar! Um tipo aristocrático por definição! Ao contrário do cachorro, que apesar de conhecer tão bem a felicidade, eventualmente sai de si e torna-se aquilo que parte dos homens se tornam e passam a possuir de pior: um ser risível, débil e imerso ao extremo em seus pseudo-valores sobre a vida.

Namaste!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A Soberania dos Pássaros

Há poucas coisas que são interessantes em se locomover de ônibus de um lado para outro numa grande cidade. Numa capital do Impávido Colosso, algum agente do Monstro Frio saiu de si e teve a idéia de fixar poemas em seus vidros. Isto é, no meio do burburinho cotidiano, onde a máxima de Sartre - O Inferno são os Outros - parece fazer todo o sentido possível, há um espaço para breves louquejares diários, onde o sujeito pode, ainda que brevemente, deparar-se com pensamentos dionisíacos e transcender ao cotidiano ordinário que o cerca.

Tão interessante, porém, quanto ler tais poesias, que em geral são de escritores anônimos, é perceber a transformação que estas causam nas raras pessoas que o lêem. Poucos, aliás, têm a capacidade de sair de si e abrir espaço para o mundo encantando que não é dominado pelo deus Apolo. Pode-se ganhar o dia ao ler algo que modifique a nossa percepção da realidade, que afinal é ilusão do início ao fim! E, ilusão por ilusão, prefiro a ilusão das palavras que melhor representam o espírito dionisíaco, em detrimento de uma racionalidade irracional que domina o tipo homem!


O que me levou a pensar nisso foi justamente um dos poemas que li há alguns anos e jamais esqueci: Os Pássaros, de Abi Miranda. Sempre que vejo um pássaro, lembro-me de tal poesia. Nela, há uma adequação necessária entre os benefícios de ser pássaro, em comparação às limitações do homo sapiens sapiens. Como deve ser transcendente poder voar, comer e cantar quando se quer! Por isso, reproduzo-a aqui e, embora eu já a conhecesse em meus pensamentos, foi numa pesquisa na grande rede que encontrei um único sítio que a reproduz tal e qual a conheci. E isso é motivo de celebração! E, secretamente, invejar os pássaros!

Namaste!

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Os Pássaros

Ah! Como eu invejo os pássaros.
Eles levantam cedo,
cantam o dia todo,
comem quando têm fome,
dormem à noite,
e "de quebra"...
. ...voam

Eu levanto tarde,
não tenho o dom do canto,
Como quando tenho o que comer,
sofro de insônia,
e se tento voar...
. ..."me quebro".

Abi Miranda - da série Poema No Ônibus

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Eterno Retorno

Amanhã, véspera de mais um feriado religioso, a atenção de boa parte dos habitantes do Impávido Colosso, e demais colossos que assim o fazem, volta-se para a lembrança daqueles que estão mortos. A morte, essa incompreensível balizadora da vida, apresenta-se em toda a sua dimensão, e inevitavelmente nos remete à insignificância de nossa existência, fazendo com que os pequenos dramas humanos pareçam risíveis e pequenos sob sua perspectiva.

Falar do término da vida, e além disso refletir sobre isso, é uma tarefa ingrata e que tanto os cães, os porcos e as ovelhas tentam evitá-la a todo custo. Para muitos, é condição sine qua non para a existência que se acredite em algo, ainda que estúpido, para seguir adiante. São necessárias as garras do leão com a frieza da cobra para suportar o peso da vida em toda a sua dimensão existencial, de forma a questioná-la permanentemente em busca de hipóteses que ajudem a diminuir a perplexidade do estar-vivo. A religião, este poço infinito de ignorância e alienação, tem como uma das principais funções filosóficas fornecer conforto e esperança aos que aqui vivem em sofrimento, deixando suas vidas bestiais mais amenas. O animal homem é o único tipo que precisa de um sentido exterior para a sua vida; o único que sofre porque sabe que sua existência é finita. Este é o preço, suponho eu que se existisse um deus tal e qual sua imagem e semelhança, que nos é cobrado como espécie por, na realidade, ter rejeitado o rótulo de animal. Como se sabe, os que melhor conhecem a felicidade são os cães...

Muitas interpretações, entretanto, são possíveis a respeito deste fenômeno, e pretendo aqui ater-me em apenas um único ponto: as religiões em geral postergam para o além-vida a felicidade, a "vida eterna", ou o Nirvana. O Cristianismo promete paz eterna no final das contas. O Budismo, por sua vez, promete o término do sofrimento através da negação completa e irrestrita do desejo; em última análise, da negação da própria vida, considerando que viver é desejar. Aliás, é importante que se diga que o Budismo, em comparação com o Cristianismo, está num nível menos ilusório de compreensão da realidade, pois não luta contra falsos valores morais (como a idéia de pecado), mas sim contra o sofrimento, pura e simplesmente. Este assunto, aliás, gera um óptimo devanenar. Um chá que será servido noutro louquejar...

Lutar contra o sofrimento é louvável, mas negar a própria vida através da eliminação do desejo é uma solução budista que em verdade nada soluciona... O pequeno fato, no entanto, de transpor para o além a idéia de plenitude e satisfação, independente de religião, torna o sujeito esperançoso de algo melhor em sua vida no futuro. Eu, ateu que sou, compartilho com Quintana a sua idéia de esperança: um urubu pintado de verde, eis tudo. Por isso, se a mim fosse necessário acreditar em algo, pura e simplesmente, ainda que como hipótese, preferiria acreditar na teoria do Eterno Retorno, de Nietzsche. Nela, há uma inversão total de valores, e a plenitude é obtida do terreno e do mundano, e não no além, como ocorre com o Cristianismo e Budismo. Parte-se do princípio que o tempo é infinito, mas o totalidade de coisas que existem, não. Por isso, através de bilhões de anos, os ciclos tendem a se repetir de forma idêntica à forma que uma vez já ocorreram no passado. Se o tempo é infinito, esta repetição já ocorreu infinitas vezes no passado; e repetir-se-á ainda infinitas vezes no futuro... Isto é, a totalidade de coisas que existem transformam-se durante muito tempo simplesmente para retornar ao seu estado original. Um universo sem início e sem fim. Um eterno continuar é o resumo do Eterno Retorno.

Praticamente pensando, significa que eu já vivi a minha vida infinitas vezes no passado, e ainda a viverei infinitas vezes no futuro. Vossa mercê, sábio leitor, já leu e ainda lerá este post infinitas vezes em sua vida. Conforme percebe-se em Assim Falou Zarathustra, capítulo Da Visão e do Enigma:

...
“Olha esse portal, anão!”, prossegui; “ele tem duas faces. Dois caminhos aqui se juntam; ninguém ainda os percorreu até o fim.

Essa longa rua que leva para trás: dura uma eternidade. E aquela longa rua que leva para a frente — é outra eternidade.

Contradizem-se, esses caminhos, dão com a cabeça um no outro; e aqui, neste portal, é onde se juntam. Mas o nome do portal está escrito no alto: ‘momento’.

Mas quem seguisse por um deles — e fosse sempre adiante e cada vez mais longe: pensas, anão, que esses caminhos iriam contradizer-se eternamente?”
...

Este tipo de pensamento é enlouquecedor, especialmente para aqueles que não aceitam a vida tal como ela nos é apresentada no mundano: cheia de dor, de sofrimento e de tristeza. Porém, também com alegria, com vinho e com riso. Numa palavra: um absurdo que não se pode explicar, desprovido de qualquer sentindo exterior! Quer dizer que eu terei de repetir tudo de novo, cada momento tal e qual já vivi e ainda viverei?! Por isso os miseráveis não suportariam tal pensamento, já que sua vida é miséria e sofrimento sem fim. Se o sujeito, ao tentar compreender tal hipótese, sentir-se satisfeito com sua vida, a ponto de repeti-la da mesma forma, com os mesmos momentos que viveu e ainda viverá, de tal sorte que deseje vivenciar tudo novamente, então, segundo o ideal nietzscheniano, terá compreendido como viver e morrer e confiar no ciclo da vida, de acordo o eterno retorno.

...
"Olha”, continuei, “este momento! Deste portal chamado momento, uma longa, eterna rua leva para trás: às nossas costas há uma eternidade.

Tudo aquilo, das coisas, que pode caminhar, não deve já, uma vez, ter percorrido esta rua? Tudo aquilo, das coisas, que pode acontecer, não deve já, uma vez, ter acontecido, passado,
transcorrido?

E se tudo já existiu: que achas tu, anão, deste momento? Também este portal não deve já — ter existido?

E não estão as coisas tão firmemente encadeadas, que este momento arrasta consigo todas as coisas vindouras? Portanto também a si mesmo?

Porque aquilo, de todas as coisas, que pode caminhar deverá ainda, uma vez, percorrer — também esta longa rua que leva para a frente!

E essa lenta aranha que rasteja ao luar, e o próprio luar, e eu e tu no portal, cochichando um com o outro, cochichando de coisas eternas — não devemos, todos, já ter estado aqui?


E voltai a estar e percorrer essa outra rua que leva para a frente, diante de nós, essa longa, temerosa rua — não devemos retornar eternamente?’’

...


Na verdade, considero esta hipótese a mais optimista dentro do aceitável em termos de hipóteses para explicar o inexplicável... É importante salientar que tal teoria nada tem a ver com ideais de reencarnação, visto que o retorno é obrigatório e idêntico ao que hoje se vive! Não há outra chance, há um único caminho no qual se está preso eternamente! Pois trata a vida como um imperativo do qual sequer a morte pode resolver. Assim, viver de acordo com o que é importante para si, tendo cada minuto e cada segundo no limite, fazendo valer a pena a ponta de, no final, poder dizer:

Mas a coragem é o melhor matador, a coragem que acomete; mata, ainda, a morte, porque diz:

“Era
isso, a vida? Pois muito bem! Outra vez!”

Namaste!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O Escolhido do Impávido Colosso

Ao ler, há algumas semanas, a notícia que o filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias foi o escolhido para representar o Impávido Colosso na premiação estadunidense do Oscar 2008, um louquejar me ocorreu. Muitos esperavam que Tropa de Elite fosse o escolhido, talvez excitados com a acção dos super-heróis bopenses, mas o fato é que o belo e suave filme de diretor Cao Hamburger foi o eleito.

Primeiro é preciso que se diga com todas as letras: pouca importância e relevância tem uma festa como esta do Oscar. Somente o fato de haver uma premiação para melhor filme estrangeiro, em detrimento ao melhor filme, já é um indício de má-fé e megalomania daqueles que organizam tal evento. Era de se esperar, em se tratando da pseudo-cultura estadunidense. Quer dizer que existe o melhor e o melhor do resto? Francamente! Assim como os habitantes dos Estados Unidos da América se consideram americanos, pura e simplesmente, esquecendo-se que todos que vivem na América (Sul, Centro e Norte) também o são, a premiação hollywoodiana somente corrobora este pensamento esdrúxulo de mundo. O que dizer duma academia que já premiou coisas como The Lord of the Rings, Forrest Gump, Shindler's List etc., e ainda adora venerar produções que insistem em mostrar uma visão parcial e alienada de certos factos da História Mundial, repetindo-os a torto e direito como se fossem maiores do que realmente o são?

Quanto ao filme tupiniquim: uma produção que retrata o período de repressão da ditatura militar sob a óptica de um garato de 12 anos, durante a Copa do Mundo de Futebol de 1970. O garoto, abandonado pelos pais, em função de perseguição política, tem de se virar numa cidade e realidade totalmente diversa da que está acostumado. Ao ver os dois filmes e compará-los, considerando por óbvio apenas este fragmento de estado de coisas, aumentou a minha dúvida a respeito de qual sociedade seria mais interessante de se viver. Pois de um lado, apesar dos esforços dos super-heróis bopenses, temos a guerra civil mostrada em todas suas cores, de forma nua e crua; de outro, uma sociedade ainda estruturada, onde não existia tal guerra como hoje a conhecemos.

Comparar 1970 com 2007 é viajar 37 anos no tempo e notar que: as ruas eram limpas, não existiam pedintes, mendigos, flanelinhas e toda sorte de infelizes que poluem a sociedade de hoje. A violência era mínima se comparada aos dias de hoje; não existiam grades e alarmes por todos os lados. Havia ainda inocência e se acredita que o Impávido Colosso era o País do Futuro... E também a população não havia crescido em quase 100%, aumentando consideravelmente a quantidade de pessoas cuja existência é resumida em sofrimento e privações de toda ordem. Para existir desta forma, seria melhor não existir!

O grande inconveniente daquela sociedade era a repressão imposta pelo Monstro Frio sob o domínio dos militares. Não se pode esquecer, sequer tolerar, que meia dúzia de ignorantes de farda, sem qualquer formação intelectual, possam dizer o que é certo ou errado, o que é justo ou não. Assim penso eu a respeito da repressão militar. Mas louvar a sociedade democrática, seu outro oposto, também não me faz delirar. Ao menos não na democracia que hoje se concebe, com seu fedor de igualdade exalando por todos os lados. A democracia grega, por exemplo, seria um bom modelo a se seguir, que na realidade é uma organização aristocrática de sociedade. E o mérito, ao invés da força, deve ser o do conhecimento; e a força deve apenas garantir que o melhor governe. Resta, pois, definir o conceito de melhor. Não me parece tarefa fácil, e embora encontre subsídios na classe intelectual, parece-me que haveria espaço para outras manifestações do saber, o que não invalidaria o modelo da sociedade.

Namaste!
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O Ano em que meus Pais Saíram de Férias (2006)

» Direção: Cao Hamburger
» Roteiro: Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani, Anna Muylaert e Cao Hamburger, baseado em história original de Cláudio Galperin e Cao Hamburger
» Gênero: Drama
» Origem: Brasil
» Duração: 110 minutos

» Sinopse: Os pais de um garoto inesperadamente o deixam com o avô paterno, por terem que fugir devido à repressão da ditadura militar. Com Paulo Autran, Simone Spoladore e Caio Blat.

Fonte: Adoro Cinema

sábado, 20 de outubro de 2007

O Perdão do Carneiro

Estava eu a pensar em qual seria o próximo louquejar deste espaço de vouyerismo pós-moderno quando saltou-me ao ecrã uma poesia cujo fragmento utilizo na chamada deste Chá: "toma um fósforo e acende teu cigarro!" Sim, Augusto dos Anjos! Versos Íntimos não é uma simples poesia; é uma obra de arte! O dia que a Toda Poderosa colocar um de seus pseudo-atores a recitá-la no último capítulo de um engodo das 8, eu viro Forrest e corro dois meses do Oiapoque ao Chuí!!! E, com isso, aproveitei para reler algumas de suas poesias, e deparei-me com este pedido de desculpas aos carneiros, na qual o seu carrasco faz um mea culpa por tê-lo matado. Na verdade, é um mea culpa do homo sapiens sapiens às demais espécies, frágeis e submissas, considerando o mundo animalesco do cruel tipo homem.

Pode-se considerar, como hipótese, que a existência débil de um carneiro seja pura e simplesmente servir ao tipo homem quando lhe for útil? Ou ainda servir de modelo para retratos de paisagens bucólicas? É interessante pensar na utilização da mesma lógica em relação ao próprio homem; afinal, o carneiro é uma metáfora para a submissão e ignorância humana. A utilidade do carneiro-homem não é a sua carne, tampouco a lã que não possui. Muito menos aquilo que a nossa espécie conquistou a duras penas: o seu pensar, o seu sentir, o seu questionar e, em última análise, a possibilidade de uma existência menos bestial. A sua utilidade reside justamente na servidão, como meio para a existência de outros animais-humanos, como porcos e cães. Se o carneiro tivesse consciência deste estado de coisas, o que ocorreria?!

Revolução é nome o nome dado a essa tentativa de mudança de estado de consciência, em geral por indivíduos afectados por ideais como igualdade, justiça e fraternidade... Porém, o carneiro não é carneiro à toa, e sua personalidade fraca e submissa talvez não suporte tal pressão e este prefira continuar no seu pequeno mundo encantado do pastar (ou seria pastalienar, algo como pastar com alienar?). Porque ser carneiro é viver confortavelmente! E morrer debilmente! E, talvez, no Paraíso receba as desculpas que lhe são tão merecidas... até lá, resta-lhe viver pastalienadamente.

Namaste!

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A um Carneiro Morto

Misericordiosíssímo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio

Décimo caia em teu algoz sombrio

E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos — fontes de perdão — perdoaram!


Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,

Se fosses Deus, no Dia do juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!

Augusto dos Anjos

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O Tráfego e a Elite

Assisti ao filme que está causando burburinho nos habitantes do Impávido Colosso: Tropa de Elite. Quanto ao filme, uma boa produção, com muito sangue e violência, personagens cuja corrupção e ausência de valores morais são uma constante, e evidencia uma das máximas que gosto muito, e que se aplica perfeitamente nesse caso: quanto mais conheço os homens, mais admiro os cães, Lord Byron. Os cães, aliás, que conhecem tão bem a felicidade... De qualquer forma, tudo dentro do que a realidade tupiniquim nos apresenta. A própria realidade tornou-se subsídio para um entrelienar digno do cinema estadunidense, ainda que muito superior a este.

Algumas coisas são fantasiosas, como o fato de sugerir que apenas uma categoria policial é incorruptível. Quer dizer que um policial comum é corrupto por definição? Para fazer parte desse segmento restrito, o sujeito deve passar por testes pesados e insanos, esquecer de si e torna-se imerso na arte da estratégia militar, de modo a mostrar o seu (des)valor e fazer jus a participar do grupo de super-heróis especializados em manter a ordem nas favelas da Cidade (outrora) Maravilhosa. E, naturalmente, deve agir com a mesma amoralidade dos famigerados bandidos: torturar e matar quem estiver no caminho e for meio para o fim em suas operações especiais. Muitas vezes, pessoas inocentes, ou simplesmente usuários de drogas ilícitas, são simples pedrinhas no caminho a atrapalhar um objectivo maior.

E pensando nisso comecei a me questionar sobre o porquê deste estado de coisas, e uma dúvida me arrebatou fortemente: se a causa desta guerra civil é o tráfego de drogas ilícitas, o que ocorreria se tais substâncias fossem legalizadas, isto é, se não houvesse mais razão para existir tráfego, porque drogas como maconha(?), cocaína, heroína, crack etc. estariam disponíveis à venda em qualquer supermercado?!

Acredito ser ilusório e infantil julgar que algum dia as pessoas deixassem de consumir tais drogas. Filosoficamente, o sujeito deixa a sua realidade opressora, sem sentido e bestial em busca de uma transcendência que seja libertadora e produza uma rápida sensação de alívio para suas dores mais profundas. É ilusório, como se sabe. Mas a vida mesmo, tal como a concebemos, não é uma enorme ilusão?! Assim penso eu nas razões para tal comportamento. Tal necessidade está além do convívio social, e os esforços para combater tal situação são inúteis e apenas ajudam a alimentar a disputa por poder e território.

Na verdade, o Monstro Frio pensa que pode determinar o que é certo, ou errado. Cigarros e bebidas alcoólicas são permitidos, ao passo que um simples baseado é proibido! Isso beira a hipocrisia, além de ser ridículo. Como princípio, sustento que algo que somente a mim cause prejuízo não compete a ninguém, muito menos ao Monstro Frio, predizer o que é permitido ou não. Alguns podem balbuciar: o mundo seria um caos se permitissem que todos usassem drogas ilícitas, porque muito mais pessoas passariam a consumir. Mas o mundo já não é um caos com tal proibição?! E, além disso, se julgarmos dessa forma, teríamos de aceitar que muitas pessoas não o fazem simplesmente por medo de possíveis conseqüências, e não por convicção pessoal dos malefícios causados. Vejo vários benefícios diretos da liberação, como a produção de uma droga com controle de qualidade, logo com menores chances de morte por overdose, arrecadação de impostos (isso o Monstro Frio adora!) recorde e, finalmente, a diminuição ou até extinção da guerra do tráfego.

Por que tal mudança não é sequer cogitada pelos porcos do Impávido Colosso? Por que tal idéia causa repúdio e aversão a muitas pessoas? Como louquejar, quando uma idéia parece muito absurda e causa repulsa, há algo ali que tem a sua porção de verdade, que não quer calar! Eu, que encontrei no consumo de chás uma forma de transcendência, gostaria de viver numa sociedade na qual as pessoas pudessem ao menos pensar num espectro mais amplo em possibilidades para a resolução efectiva de seus problemas. Porque simplesmente pensar que uma polícia como a do BOPE seja solução para alguma coisa é passar atestado de estupidez em nível demencial.

Namaste!
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Tropa de Elite (2007)

» Direção: José Padilha
» Roteiro: Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani e José Padilha
» Gênero: Ação
» Origem: Brasil
» Duração: 118 minutos

» Sinopse: Um capitão do BOPE quer deixar o posto e busca um substituto, ao mesmo tempo em que 2 amigos se destacam por sua honestidade como policiais. Dirigido por José Padilha (Ônibus 174) e com Wagner Moura e Caio Junqueira no elenco.

Fonte: Adoro Cinema

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Chá com Açúcar

Nestes últimos dias, estava eu a pensar no tempo que dedicamos a certas coisas em detrimento de outras. E como isso influencia a nossa percepção daquilo que julgamos como realidade. Tudo isso me ocorreu em função do burburinho em função do término de uma novela da Toda Poderosa, que se findou recentemente. É incrível como um pseudo-drama, de uma pseudo-dramaturgia e com pseudo-atores pode entrelienar de tal forma os habitantes do Impávido Colosso.

Não assisto a estas produções, mas já as assisti há uma dúzia de anos. Fi-lo (para lembrar o candidado da vassoura...) para me entreter, como era de se esperar, embora sem consciência disso. Não pretendo que as pessoas que o fazem deixem de fazê-lo, mas é preciso situar as coisas: comer uma merenda no supra-sumo do fast food é como ingerir pitadas de veneno em pequenas porções. Mesmo sabendo disso, ainda muitas pessoas comem lá. Com as novelas da Toda Poderosa não é diferente, mas ter consciência do lixo que se vê já é um começo para o questionamento que deveria nortear alguém que tenha uma visão crítica sobre o estado de coisas que nos cercam.

Pois bem: com o passar do tempo e do desenvolvimento do senso crítico, algumas coisas se tornam mais claras (ou menos obscuras). Por exemplo: o sujeito desperdiça em torno de 160 horas de seu tempo, distribuídas ao longo de seis meses, para contemplar o espetáculo degradante que nos é apresentado. As tramas são infantis, os atores sofríveis; o conteúdo é recheado de preconceitos e falsos moralismos do início ao fim, dicotomias dignas do cinema estadunidense. Com 160 horas é possível assistir a 80 filmes!! Ou ainda escutar a discografia completa do Pink Floyd por várias vezes!! Quanto a pseudo-trama: por que aqueles rotulados como os maus não podem dar-se bem ao final? Somente os bons tem essa prerrogativa. Ao que me pergunto: são as pessoas boas ou más todo o tempo? Segundo tais engodos, sim. Como se em cada indivíduo não houvesse o santo e o pecador a coexistir! Mais ou menos como muitas religiões pregam: no final, os bons, os justos e os sofridos serão recompensados. Os fortes, os dominadores e os maus serão punidos e pagarão por seus actos, ou morrerão. A vantagem da novela é que ela promete e cumpre em terra; as religiões, somente após o derradeiro ocaso.

Pouco entendo de dramaturgia, mas algumas coisas chamam-me atenção. Compare as imagens abaixo. Uma é de um chá com açúcar conhecido, outra é da série estadunidense Dead Zone e a terceira do é do filme alemão A Vida dos Outros.


Enlatado global, Dead Zone e A Vida dos Outros

Percebe-se o foco dos atores: nas novelas, a face é focalizada, quase cortando o rosto do sujeito; na série estadunidense, como no filme alemão, há um distanciamento maior dos atores, que estão preocupados muitas vezes com algo além de seus pseudo-dramas existenciais.

Não sei precisar o porquê disso, mas arrisco um devanear: o foco para a face e somente para ela é uma forma de visualizar a realidade única que cerca o sujeito, não permitindo outras interpretações do resto, isto é, tudo que há. Os dramas pessoais são infinitos e não há espaço para o resto. O que é o resto?! É apenas tudo que há! Se não existisse este espaço, para além dos pequenas dramas mundanos que norteiam os personagens, como o estado de coisas de tudo que há mudará? E quem deseja que mude? A quem interessa manter o status quo? Mesmo porque em três meses ninguém mais se lembrará do conteúdo do pseudo-trama, que efetivamente já terá cumprido o seu papel de entrelienar, ao passo que uma nova pseudo-questão estará a abalar os teleespectadores da Toda Poderosa.

Postscriptum: lembra-te que este é um chá de ficção e qualquer semelhança com chás reais terá sido mera coincidência.

Namaste!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Chá sem Pimenta

Num dia destes, na hora em que o sol se põe, estava eu a navegar despreocupadamente na Grande Rede, quando salta-me ao ecrã um blog co-irmão a este criado pelo meu alter ego. Chama-se Chá das Cinco, um blog anti-stress. E ainda com bolinhos! Recomendo-o a todos que desejam tomar um chá com calma, tranqüilidade e sobretudo, sem muito louquejar ou devanear.

Não se trata de ironia, ao contrário: sorte daqueles cujo ocaso ainda não iniciou! São as bolhas de sabão, na melhor acepção da expressão, voejando conforme o vento lhes sugere; tão necessárias a produzir beleza e inocência ao mundo decadente que vivemos.

Ao que me lembrei das palavras de Zarathustra em Do Ler e Escrever: Ver voejar essas alminhas loucas, leves e graciosas induz Zaratustra a chorar e a cantar. Gosto desta passagem. Faz lembrar que às vezes é necessário esquecer um pouco do abismo existencial e, ao que se costuma deduzir como uma simplificação do nosso ocaso, viver sem pensar. A felicidade reside justamente em não pensar... e o que de melhor os cachorros possuem? A arte de não pensar!

E em seqüência Zarathustra divaga: só acreditaria num deus que soubesse dançar e também que, ao ver o seu diabo, achou-o sério, métodico, profundo e solene: a causa pela qual todas as coisas caem. A nossa felicidade, como suposição, não residiria, então, justamente na negação, talvez inconsciente, da interpretação do que inventamos para nós como espécie? Nem que seja por dois míseros segundos! A arte do esquecimento: por isso temos de morrer; caso contrario, nossas memórias nos sufocariam.

Por isso os cachorros são invejados!

Por isso o Diabo é a nossa consciência a pensar, a borbulhar... a ver abismos!

E somente um Deus que aniquilasse o espírito de gravidade poderia ser acreditado.

Mas, em verdade, o animal homem é o único tipo que precisa acreditar. Por que precisamos acreditar? E, como se sabe, o cachorro não precisa adorar deuses por ele inventados para justificar o injustificável...

Namaste!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Da Musicalidade do Leão

Uma das idéias de senso comum reza que é possível conhecer alguém pelo seu gosto musical. Inclusive pela importância que dá as artes, como a literatura, teatro, poesia e música, consegue-se ter uma dimensão dos valores que norteiam o indivíduo. Como viver sem música? E, ainda, como viver sem música de qualidade? A sociedade globalizada gera diariamente toneladas de lixo, coisas horrorosas cujo objectivo é entreter (ou alienar, algo como entrelienar) gerando o que se chama a cultura de massa. Alheio a isso, não posso deixar de escrever a respeito daquilo que possui valor em si, e que independente de opinião pessoal está num nível superior e que não merece ser apenas escutado; mas sobretudo celebrado. Ao escutar algo superior, deve-se celebrar e não apenas escutar.

Um dos conjuntos que possui virtuosismo musical extraordinário chama-se Pink Floyd. Aprecio suas longas músicas, como Shine On You Crazy Diamond, Time, Echoes, Dogs etc. Músicas estas que não tocariam em rádios comerciais porque são longas demais. Como se existisse um dedo ordenador a instituir os três minutos como tempo ideal para uma canção. De fato, quem hoje tem tempo para ouvir os 17"04' de Dogs sem ficar com aquela doente sensação de perda de tempo?

Esta música, aliás, compõe o álbum Animals, lançado em 1977 (ano do início de meu ocaso), que é um álbum conceito, isto é, um álbum baseado em algum assunto e cujas músicas referenciam-se a ele. Pois bem, Animals referencia o romance de George Orwell, Animal Farm, ou A Revolução dos Bichos. A interpretação realizada por Roger Waters, com subsídios da obra original, foi de dividir a humanidade em três categorias (a metáfora permanece atual): cães, porcos e ovelhas. Os cães representam os homens de negócio megalomaníacos, ávidos por lucro acima de tudo. Podemos pensar neles como os banqueiros brasileiros, com seus recordes de lucros a cada semestre. O porco representa a classe política e, especialmente no Impávido Colosso, sua endêmica corrupção. Finalmente temos as ovelhas, que são o tipo fraco e alienado, facilmente manipulado. A quase totalidade da população brasileira é composta de ovelhas, que são manipuláveis pelos meios de comunicação, e não pensa.

Neste mundo animal, para sacudir e mudar este estado de coisas, fiquei pensando em qual animal representaria uma possível transformação nesta fazenda humana. Aí, num louquejar desses quaisquer, veio-me à imagem a figura do leão. Sim, o leão que está descrito em Assim Falou Zarathustra como o destruidor de valores, o espírito de rebeldia, o eu quero; aquele que, se não consegue criar ainda, ao menos tem a capacidade de indignação, de revolta e abertura para a criança, para o novo, para abrir terreno para o além-do-homem.

É possível, hoje, existirem leões a sacudir o espírito humano e preparar o terreno para o novo? E qual novo seria este? Parece-me que falta o que desejar... E eu gostaria de acreditar nisso, mas tenho cá minhas dificuldades. Às vezes parece-me tão mais fácil ser ovelha e estar mais próximo à felicidade, que desenvolver as garras leoninas e não aceitar passivamente este estado de coisas que nos cercam... Divagações à parte, este é post 3 em 1: leia o livro, veja o filme e celebre o disco. Porque o homem inatamente deseja transcender, e Animals é um bom começo.

Namaste!

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Felicidade Canina

Estava eu a admirar a perfeição simétrica de um conjunto de formigas num dia desses sem grandes novidades quando me deparo com dois primos mamíferos em plena comunhão, e tirei a fotografia abaixo. Quem leu o meu post sobre a Felicidade como Princípio para uma Existência Débil pode entender, agora, de forma mais directa, visual e didáctica como a felicidade se encontra nas pequenas coisas do dia-a-dia, e naturalmente, reforçar a máxima: queres ser feliz? torna-te um cachorro!

Namaste!


terça-feira, 11 de setembro de 2007

Intuição

Quem possui um blog, este espaço de voyeurismo pós-moderno tão rico e ao mesmo tempo tão pobre, sempre está em busca do próximo post; no meu caso, do próximo louquejar. É um sentimento interessante, de leve excitação e fugaz contentamento. Tem lá suas utilidades: apropriado para fazer passar mais rápida uma tarde de segunda-feira. Meu alter ego, porém, deseja mais e por isso pensa que cada post deveria ser uma canção daquelas de filosofia, mas não o é; até porque nem sempre se pode gritar poesia e bater o pé no chão.

Acredito que, para mim, que me proponho a transpor devaneios em palavras a tarefa é um pouco mais ingrata. Pois não só apenas os assuntos em si, mas como dividi-los de forma adequada para a realidade de um blog. O chá aqui servido não vem com o fundo da xícara em algum tubo pronto, com linguagem de videoclipe. Naturalmente, os textos ficam longos, o que diminui consideravelmente a possibilidade de leitura até o fim. Sim, o objetivo de transposição de pensamentos, por vezes confusos e complexos, em doses homeopáticas de chá, exige que se abandone, nem que seja brevemente, a pressa com a qual se está habituado nos dias de hoje.

O que me levou a pensar nisso é justamente um pensamento simples e intrigante, que sussurro aqui: um pensamento ocorre apenas quando quer, e não quando eu quero. É o que se encontra em Além do Bem e do Mal ou Prelúdio de uma Filosofia de Futuro, de Nietzsche, precisamente na página 32 (tradução de Márcio Pugliesi):

"Quando se fala da superstição dos lógicos não deixo nunca de insistir num pequeno fato que as pessoas que padecem desse mal não confessam senão através de imposição. É o fato de que um pensamento ocorre apenas quando quer e não quando 'eu' quero, de modo que é falsear os fatos dizer que o sujeito 'eu' é determinante na conjugação do verbo 'pensar'. 'Algo' pensa, porém não é o mesmo que o antigo e ilustre 'eu', para dizê-lo em termos suaves, não é mais que uma hipótese, porém não, com certeza, uma certeza imediata."

Da primeira vez o que o li, causou-me surpresa e ao mesmo tempo apreensão. Quer dizer então que eu não penso, alguma coisa pensa? E que é impossível controlar meus pensamentos? Para alguns até é questão de sobrevivência que não se pense... De qualquer forma, o Cogito Ergo Sum de Descartes, e tudo que (ainda) representa na sociedade contemporânea, cai por terra com uma simples assertiva: não consigo predeterminar o que penso de forma a pensar exatamente aquilo que eu desejaria. Se alguém diz: não pensa em uma maça verde, a entidade que em nós gera aquilo que interpretamos como pensamento faz justamente o contrário! E pensa na tal maça verde! E depois fica com raiva, pois foi abduzido! Sim, este tipo de pensamento é enlouquecedor, pois diminui na essência a nossa auto-estima enquanto espécie.

No final, o canto que não silencia é mesmo onde principia a intuição? E suponho que não podemos determiná-la, em qualquer hipótese, mesmo que tentássemos com toda a nossa força. Se o homem conseguir entender suas limitações, ao invés de penso, cientificamente existo, ou ainda penso, mercadologicamente existo e parar de classificar em percentuais o que se convenciona chamar de utilização do cérebro, tentando em vão ser algo que não é, na tentativa inútil de resgatar a nossa suposta superioridade enquanto espécie, mais canções rimadas não brotariam espontaneamente de nossos pensamentos?

Namaste!

sábado, 8 de setembro de 2007

A Esperança do Impávido Colosso

Hoje, não sei o porquê, estou com meu nível de patriotismo acima da média. Então aí vai mais um poema de Quintana, que também é mestre em poemas curtos, em geral de uma única frase.


E eu louquejando aqui imagino um urubu verde no desfile oficial acenando ao molusco semi-analfabeto, e a patuléia comovida a aplaudir! Emocionante, não, meu moluscóide leitor?

Namaste!

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"A Esperança é um urubu pintado de verde."

Mário Quintana

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O Milagre Brasileiro

Às vezes uma poesia de três ou quatro linhas é capaz de dizer mais que extensos textos e teorias. A poesia é o pensamento dionisíaco por excelência! Amanhã, sete de setembro, em homenagem a nossa independência, não posso deixar de imaginar que somente um milagre pode fazer um país como o Brasil deixar de ser risível e vergonhoso.

Por isso, lembrei-me de uma das melhores poesias já escritas por Mário Quintana. Nela é possível ter uma dimensão exata do seu entendimento do ideal de milagre. É irônica, como são muitas das poesias de Quintana, o que para mim constitui um prazer adicional em lê-la.

Não seria possível e adequado também incluir uma frase em homenagem ao Impávido Colosso nas letras abaixo?

Namaste!

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Dos Milagres

Milagre não é dar vida ao corpo extinto

Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...

Nem mudar água pura em vinho tinto...


Milagre é acreditam nisso tudo!

Mário Quintana

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Das Interpretações que se Tornam as Coisas em Si

Gosto de pensar que no estar-vivo precisamos de meia dúzia de conceitos bem fundamentados para poder pensar decentemente. Sim, poucas coisas que, naturalmente, não são valorizadas. O sujeito passa onze anos na escola e ao sair torna-se um boçal cujo único objetivo é: ser aprovado no vestibular! Quando tem aula de filosofia, o que acontece raramente, por exemplo, é aquela coisa sonolenta de decorar filósofos, idéias de filósofos, teorias, datas etc., fora da realidade do estudante. Assim, qualquer estudante, cujos hormônios estão em alto nível de proliferação, acharia, como eu, uma imbecilidade tais aulas.

Um das idéias que ajudam a fazer pensar vou louquejar aqui: o quanto nos esquecemos que vivemos numa realidade de aparências, onde possíveis interpretações se tornam as coisas em si. Quando digo que um dia possui 24 horas, na verdade isso é uma interpretação possível para aquilo que defino como dia: a percepção do tempo em horas que se aproxima de um interpretável ciclo. Assim, a ciência chama o tempo que a Terra leva para fazer uma rotação completa sobre o seu eixo. Porém, este 24 horas da forma como o concebemos não corresponde em sua exatidão a 24 horas. No final, as contas não fecham! Precisamos ajustar a realidade para satisfazer nossos interesses. As cores são outro exemplo: o que vejo como verde, para um daltônico é vermelho. Para um outro animal, pode ser qualquer outra (idéia de) cor. Até o nome da coisa em si, verde e sua associação a uma determinada cor, é uma interpretação particular da nossa espécie sobre tal fenômeno. A matemática, e suas fantasias sobre a explicação de todas as coisas pelo número, é outro exemplo. Quando inventamos que o fatorial de zero é um, isso é o acomodamento conveniente para explicar uma deficiência em nossa interpretação possível do mundo pelo número.

Nada disso constitui, em essência, um conhecimento verdadeiro, somente um conhecimento possível. Alguém pode perguntar-se: existe um conhecimento verdadeiro? Ou a vida mesmo, e tudo que nos cerca, é uma interpretação conveniente daquilo que percebemos como real? Parece-me que para todas as coisas que existem não podemos alcançar a sua essência; supondo mesmo que exista tal essência. Até mesmo as palavras estão carregadas de interpretações e associações de modo que, ao nascer, o sujeito já ganha um mundo pronto, com verdades, regras e conceitos já pré-definidos e não raro é incapaz de perceber que este estado de coisas é apenas uma única interpretação possível que foi criada ao longo de séculos pelo homem.

Ao perceber que se vive numa realidade falsificada pelo homem, e que o questionamento e reinvenção de tudo que há não é apenas possível, como desejável, infinitas possibilidades a apimentar o chá são possíveis. Para muitos, viver com as pequenas verdades que lhe foram dadas é o suficiente; e dão o nome de crença à interpretação do mundo que acreditam ser real. E, para ser resistente, não pode ser contestada. As religiões são um câncer cuja origem é o medo da percepção que na realidade não há realidade, apenas interpretações de realidades. No cristianismo, duvidar é já pecar! Mas isso é assunto para outro louquejar...

Namaste!

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A Bomba, o Homem e a Barata

Em tempos de superaquecimento global acho conveniente pensar no que representamos como espécie diante do mundo que vivemos. E, naturalmente, destruimos com a mesma mestria com que construimos. Hoje, a natureza cobra o seu preço e eu cá não posso deixar de me rir com a desgraça humana. Como!? Sim, às vezes tenho vergonha de pertencer a esta espécie imunda que em menos de 100 anos fez as barbaridades que conhecemos.

Ontem, o homem era o centro de tudo. Hoje, o Deus Mercado dá as cartas. Amanhã, as baratas reinarão soberanas. Quem de nós tem a coragem de olhar para uma barata e sentir-se envergonhado?

Divagações à parte... Esta poesia, do inigualável Drummond, mostra todo o seu ódio pelas guerras e tudo que ela - no formato de bomba - pode produzir. Por outro lado, ao lê-la e substituir os termos bomba por homem, essa poesia passa a fazer um sentido ainda maior. Eis-la:

Namaste!

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A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores

A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido

A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles

A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna

A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem

A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio

A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece

A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está

A bomba
mente e sorri sem dente

A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados

A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada

A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar

A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação

A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés

A bomba
faz week-end na Semana Santa

A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia

A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários

A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia

A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa

A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer

A bomba
continnua a envenená-las no curso da vida

A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais

A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba

A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai

A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera

A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria

A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.

A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave

A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos

A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar

A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe

A bomba
saboriea a morte com marshmallow

A bomba
arrota impostura e prosopéia política

A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living

A bomba
é podre

A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado

A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo

A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade

A bomba
tem um clube fechadíssimo

A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel

A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris

A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz

A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas

A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas

A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer

A bomba
é câncer

A bomba
vai à Lua, assovia e volta

A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia

A bomba
está abusando da glória de ser bomba

A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável

A bomba
fede

A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina

A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve

A bomba
não destruirá a vida

O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Máquina de Escrever

Assisti ao filme A Vida dos Outros, produção alemã vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2007. A história se passa na Berlim Oriental pré-queda do Muro, em meados dos anos 80. Um diretor de teatro é espionado pela inteligência do governo e passa a escrever um artigo sobre o fato do governo alemão ocultar dados sobre suicídios, após o suposto suicídio de um amigo e também diretor. Na verdade, esta falta de estatística, numa cultura com excelentes históricos estatísticos sobre quase tudo, é o indicativo de intenções obscuras. Um filme interessante, não só pela história em si, mas sobretudo por buscar uma visão humanista de seus personagens, independente do lado que estão. Bem diferente da tradicional estupidez dicotômica do cinema estadunidense.

O fato que a mim chamou-me atenção: o diretor escreve seu artigo utilizando uma máquina de escrever, trazida especialmente da Alemanha Ocidental, e cuja permanência em seu apartamento é mantida embaixo do chão, num suporte de madeira. Perceberam?! O meio para comunicação se mantinha oculto e era a hoje rudimentar e risível máquina de escrever!

Atualmente isso não faria o menor sentido, visto que temos computadores com infinitos recursos e a internet como catalisadora de toda e qualquer idéia que se deseja espalhar. E tudo isso em menos de 20 anos! Possivelmente o alto escalão da RDA, se pudesse antever o futuro, imaginaria o armageddon cá nos dias de hoje, com tamanha possibilidade de expressão.

No entanto, uma máquina de escrever era, em sua época, potencialmente mais perigosa que toda a internet hoje em dia. Como?! Qualquer um pode criar um blog ou site qualquer, servir um chá e esperar todos sentirem seus efeitos. A quantidade de informação disponível supera, e muito, a nossa capacidade de absorção. Assim, a nossa possibilidade de compreensão. Não há idéia que tenha impacto e precise ser combatida. Elas estão difundidas por aí, mas ninguém dá a mínima. Não são capazes de fazer muitas transformações e quem dera revoluções, tampouco mobilizar as pessoas.

Entre a censura de 1984 e a liberdade de expressão de hoje eu não sei dizer com precisão o que prefiro. Obviamente eu não poderia servir chá sob repressão (ao menos não com pimenta...), porém teria um sentido a alcançar, um inimigo em comum. Quando tiramos o elemento externo de nossos objetivos, muitas vezes, terminamos sem nossos próprios objetivos. Hoje, alguns se perguntam: quem é o inimigo? Quando na realidade a maioria não está nem aí para isso. Talvez, com sorte, possamos ver na economia de mercado um inimigo a ser combatido, e sua medíocre noção utilitarista e consumista do estar-vivo. Mas este é apenas um talvez. Ontem, um talvez poderia ser perigoso, assustador e revolucionário. Hoje, um talvez é apenas uma palavra que, sozinha, retorna aproximadamente 20.700.000 registros do Google.

Namaste!

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A Vida dos Outros (Leben der Anderen, Das, 2006)

» Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
» Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck
» Gênero: Drama
» Origem: Alemanha
» Duração: 137 minutos

» Sinopse: Em novembro de 1984, o governo da Berlim Oriental busca assegurar seu poder através de um cruel sistema de controle e vigilância sobre os cidadãos. O capitão Anton Grubitz busca ser promovido em sua carreira, com o apoio dos mais influentes círculos políticos da época, e para isso dá a um fiel agente do sistema, Gerd Wiesler, o encargo de coletar evidências contra o bem-sucedido dramaturgo Georg Dreyman e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland.

Fonte: http://www.cineplayers.com/filme.php?id=2829