terça-feira, 2 de outubro de 2007

Chá com Açúcar

Nestes últimos dias, estava eu a pensar no tempo que dedicamos a certas coisas em detrimento de outras. E como isso influencia a nossa percepção daquilo que julgamos como realidade. Tudo isso me ocorreu em função do burburinho em função do término de uma novela da Toda Poderosa, que se findou recentemente. É incrível como um pseudo-drama, de uma pseudo-dramaturgia e com pseudo-atores pode entrelienar de tal forma os habitantes do Impávido Colosso.

Não assisto a estas produções, mas já as assisti há uma dúzia de anos. Fi-lo (para lembrar o candidado da vassoura...) para me entreter, como era de se esperar, embora sem consciência disso. Não pretendo que as pessoas que o fazem deixem de fazê-lo, mas é preciso situar as coisas: comer uma merenda no supra-sumo do fast food é como ingerir pitadas de veneno em pequenas porções. Mesmo sabendo disso, ainda muitas pessoas comem lá. Com as novelas da Toda Poderosa não é diferente, mas ter consciência do lixo que se vê já é um começo para o questionamento que deveria nortear alguém que tenha uma visão crítica sobre o estado de coisas que nos cercam.

Pois bem: com o passar do tempo e do desenvolvimento do senso crítico, algumas coisas se tornam mais claras (ou menos obscuras). Por exemplo: o sujeito desperdiça em torno de 160 horas de seu tempo, distribuídas ao longo de seis meses, para contemplar o espetáculo degradante que nos é apresentado. As tramas são infantis, os atores sofríveis; o conteúdo é recheado de preconceitos e falsos moralismos do início ao fim, dicotomias dignas do cinema estadunidense. Com 160 horas é possível assistir a 80 filmes!! Ou ainda escutar a discografia completa do Pink Floyd por várias vezes!! Quanto a pseudo-trama: por que aqueles rotulados como os maus não podem dar-se bem ao final? Somente os bons tem essa prerrogativa. Ao que me pergunto: são as pessoas boas ou más todo o tempo? Segundo tais engodos, sim. Como se em cada indivíduo não houvesse o santo e o pecador a coexistir! Mais ou menos como muitas religiões pregam: no final, os bons, os justos e os sofridos serão recompensados. Os fortes, os dominadores e os maus serão punidos e pagarão por seus actos, ou morrerão. A vantagem da novela é que ela promete e cumpre em terra; as religiões, somente após o derradeiro ocaso.

Pouco entendo de dramaturgia, mas algumas coisas chamam-me atenção. Compare as imagens abaixo. Uma é de um chá com açúcar conhecido, outra é da série estadunidense Dead Zone e a terceira do é do filme alemão A Vida dos Outros.


Enlatado global, Dead Zone e A Vida dos Outros

Percebe-se o foco dos atores: nas novelas, a face é focalizada, quase cortando o rosto do sujeito; na série estadunidense, como no filme alemão, há um distanciamento maior dos atores, que estão preocupados muitas vezes com algo além de seus pseudo-dramas existenciais.

Não sei precisar o porquê disso, mas arrisco um devanear: o foco para a face e somente para ela é uma forma de visualizar a realidade única que cerca o sujeito, não permitindo outras interpretações do resto, isto é, tudo que há. Os dramas pessoais são infinitos e não há espaço para o resto. O que é o resto?! É apenas tudo que há! Se não existisse este espaço, para além dos pequenas dramas mundanos que norteiam os personagens, como o estado de coisas de tudo que há mudará? E quem deseja que mude? A quem interessa manter o status quo? Mesmo porque em três meses ninguém mais se lembrará do conteúdo do pseudo-trama, que efetivamente já terá cumprido o seu papel de entrelienar, ao passo que uma nova pseudo-questão estará a abalar os teleespectadores da Toda Poderosa.

Postscriptum: lembra-te que este é um chá de ficção e qualquer semelhança com chás reais terá sido mera coincidência.

Namaste!

Um comentário:

Adriana disse...

As novelas de hoje já fazem personagens mais complexos, maus e bons interessantes, mas não importa!!!! Vc tem toda razão em achar um saco essas novelinhas hahahahaha
um saco...
eu posso pagar e boca e voltar a ver qualquer hora dessas, mas faz anos que não vejo pq sempre q dou umas olhadas, até sou meio fisgada, mas o encanto não dura muito, pq começa logo a ficar previsível e repetitivo na fórmula e me cansa. A novela tem sua função catártica, mas acho que outras coisas tb o têm, só resta a gente descobrir, teatro, o quê hahahaha
é bom saber que temos opções...
Por falar nisso, meu caro, faço aqui uma crítica pública por vc não ter ido assitir Ariane Mnoushkine com seu teatro de Soleil pela primeira vez no Brasil. Uma experiência de ser embalado no colo e chorar de emoção estética!!!
Cuidados com ambientes, cenários, música, figurino, mas principalmente com trabalho de ator e de encenação!!! Acolhedor, bárbaro, revelador, e simples, humano... mas um simples que envolve a complexidade de uma vida na arte para se desnudar pouco a pouco do complicado. Eu vi meu vô, minha mãe, minha alma ali em tantas nunaces que nem saberia te contar...é bom quando a gente relembra de coisas que só acontecem do jeito que acontecem, porque a gente construiu e constrói a arte pra dizer assim...