sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Sermão, o Petróleo e a Liberdade

"Eu sou um falso profeta e Deus é uma superstição."

Eli Sunday curvando-se a Daniel Plainview em Sangue Negro

Ao assistir recentemente ao filme Sangue Negro (There Will be Blood), um dos candidatos ao Oscar de melhor filme estadunidense de 2008, louquejei comigo mesmo a respeito das duas forças propulsoras da sociedade ocidental no século XX, que estão bem retratadas no filme: o fanatismo religioso e a ganância capitalista. Ambas forças convivem e estão entrelaçadas de forma radical no filme baseado na obra Oil!, do escritor Upton Sinclair. Sangue Negro é denso e envolvente, além de ser mais importante historicamente em relação a Onde os Fracos não têm Vez (No Country for Old Man), que venceu a categoria de melhor filme em 2008. Aliás, não raro, a indústria cinematográfica estadunidense escolhe filmes de qualidade duvidosa em suas premiações, obedecendo a critérios obtusos, em detrimento de outros que são efetivamente melhores, como foi o caso de Sangue Negro.

No filme, o capitalismo ganancioso está presente na figura de um explorador de petróleo, que não mede esforços em busca de acumulação de riquezas. Já o fanatismo religioso, na figura de um pastor de igreja, tendo como valor máximo a propagação de dogmas de sua crença, cuja conversão do maior número de fiéis é o elemento motivador de seu rebanho. Pois bem, ambas forças carecem de significado em si, negando categorimente a liberdade individual: no primeiro tipo, através da crença no capital e coisificação do homem, aproveitando-se do desespero humano para iludi-lo através da crença no acúmulo de riquezas a todo custo. No segundo tipo, pela profunda negação da própria vida, através de dogmas que determinam a vida que o sujeito deve levar, transformando-o em um fantoche negador da liberdade e preso a um sistema de crenças cujo objetivo é negar o sofrimento de saber-se em si, de aceitar a liberdade e incertezas da realidade que nos é apresentada.

E, ao pensar em todo este estado de coisas, lembrei-me do pensamento fundamental do existencialismo Sartriano, que diz: a existência precede a essência. Um pensamento aparentemente simples, mas que, se bem entendido, acarreta em uma série de implicações a respeito do estar-vivo. Quando se pensa num aparelho de telefone, ou num computador, tal idéia se aplica ao contrário, visto que, nesses casos, a essência precede a existência. Primeiramente o cruel tipo homem imaginou e projetou tais produtos para, atrás da combinação de diversos elementos da natureza e do conhecimento humano, poder produzi-los primeiramente no mundo das idéias, para depois efetivamente em larga escala para consumo, na forma como os vemos em seu estado final.

Para o ser humano, no entanto, tal conceito não é aplicável, visto que existimos primeiramente, e só depois construimos a nossa essência. Antes, o nada ou o absurdo, existe. Após o término de nossa existência, o nada ou o absurdo, existe. Assim, para que tal possibilidade não fosse verdadeira, deveria existia uma essência anterior à existência para dar forma ao tipo homem, tal qual o telefone ou o computador. Tal essência poderia ser interpretada de várias formas, sendo a principal delas a crença religiosa que diz que existe uma entidade criadora e cuja vida que vivemos possui um propósito em si, determinado por uma entidade divida. É sob tal alicerce que se baseia a fé, pois para um grande número de indivíduos, seria impossível suportar a vida tal como ela é de fato, isto é, um absurdo existencial sem sentido, que a transforma em sofrimento constante, amenizado pela salvação pela fé.

Para muitos, transferir a dor existencial para uma ilusão capitalista, elegendo o capital como um valor-em-si, é uma solução que, em verdade, nada soluciona... Afinal, nesse modelo de pensamento, cada vez mais alimentado pelo poder de grandes corporações e pelo sistema financeiro, o homem coisificado transforma-se em apenas uma peça na engrenagem que movimento a economia global, ou um tijolo no muro da ignorância daquilo que alguns ousam chamar de educação. Tal tijolo representa o indivíduo cerceado de sua subjetividade e liberdade, refém de um sistema que transforma a existência em algo decadente e ilusório, uma vez que carece de valor-em-si.

Na filosofia existencialista, a responsabilidade é o elemento fundamental, pois uma vez que não existem razões divinas para justificar o injustificável, compete ao indivíduo escolher aquilo que é melhor para si, assumindo os seus atos integralmente e, assim, excluindo de seu pensamento sentimentos de culpa ou arrependimento. É por isso que Sartre diz que estamos condenados à liberdade. Tal liberdade é, não raro, uma condenação, pois implica que o ser humano deve assumir-se a si mesmo e tudo que faz em sua vida: os pensamentos que lhe ocorrem, as pessoas com as quais se relaciona, as vivências que participa... Em resumo: a construção da obra de sua própria vida. Tal liberdade pode não ser suportada pelo cruel tipo homem, o qual tenderá a iludir-se com as farsas religiosas ou capitalistas. Aceitar a vida e o absurdo que é o estar-vivo e criar os seus próprios valores são as únicas formas de existir honestamente consigo mesmo, não incorrendo na negação acerca da liberdade que possuímos, nem tampouco na auto-coisificação existencial, isto é, em má-fé.

Namaste!

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Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007)

» Direção: Paul Thomas Anderson
» Roteiro: Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil!, de Upton Sinclair
» Gênero: Drama
» Origem: Estados Unidos
» Duração: 158 minutos

» Sinopse: Um mineiro fracassado e seu filho partem para uma pequena cidade, sonhando com a riqueza obtida pelo petróleo. Dirigido por Paul Thomas Anderson (Magnólia) e com Daniel Day-Lewis e Paul Dano no elenco. Vencedor de 2 Oscars.

Fonte: Adoro Cinema

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O Juizado Especial Cível como um Meio de Equilíbrio Social

"O homem é o lobo do próprio homem".

Thomas Hobbes

Estava eu a pensar na disparidade de forças entre o indivíduo comum e as grandes corporações quando, ao ouvir alguém reclamar de um serviço prestado de forma deficiente, esbravejando pois se sentia prejudicado e aparentemente sem muitas opções para resolver o seu problema, um louquejar ocorreu-me: como o ordinário tipo homem desconhece a força do Poder Judiciário! Em verdade, trata-se de uma das únicas possibilidades de equilíbrio de forças entre tais organizações e a sociedade.

Parto do princípio que, sempre que houver uma relação entre uma grande corporação e um indivíduo, tal relação é viciada e desigual por definição, já que o instinto predador e ganancioso das grandes corporações assim determina que se desenvolva tal relação. Torna-se mister esquecer as baboseiras que as propagandas sugerem e, quando dizem que o cliente é a razão do nosso trabalho, o cliente em primeiro lugar, ou ainda a sua satisfação é a nossa satisfação, mentem descaradamente e apenas justificam o salário dos publicitários que criam tais débeis campanhas, dando razão por completo, em relação à esposa de César, à máximo que diz: não basta ser honesta, é preciso parecer honesta. No caso, parecer já se torna suficiente para tais empresas...

É neste ponto que o Poder Judiciário mostra-se útil, através dos Juizados Especiais Cíveis (JEC, vulgo pequenas causas). Não que o serviço lá prestado seja excelente, pois no Impávido Colosso a lentidão de 3 a 12 meses para um julgamento em 1º e 2º grau é deveras excessiva; mas ao menos é menos lento que as causas comuns e não é necessário desembolsar um único centavo para ingressar com uma ação, desde que o montante requerido seja inferior a determinado valor. Naturalmente, ninguém enriquece ilicitamente em tais causas, porém faz valer o equilíbrio nas relações por vezes deturpadas entre indivíduo e grandes corporações.

Contratos de fidelidade, tarifas bancárias, débitos irregulares, relações de consumo em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor: excelentes oportunidades para uma visita a um JEC. Eu mesmo, influenciado pelo meu alter ego, já recorri a tais serviços em algumas oportunidades, tendo bons resultados para as situações que enfrentei. E até é possível divertir-se nas audiências, pois é cômico assistir a atuação de advogados (aqueles que se auto-intitulam doutores, mesmo tendo apenas o título de bacharel) e prepostos, representantes dos cães-acionistas, a defender muitas vezes o indefensável. Esses são um tipo de ator a representar um papel bestial, cujo fundamento essencial é a falsidade sob qualquer ângulo que se analise a situação.

Indenizações de até R$2.000,00 muitas vezes representam um custo menor a tais organizações que os honorários advocatícios e despesas administrativas que tais ações geram. Existe uma verba, suponho, especialmente destinada a estes fins. Como o percentual de pessoas que reclamam é ínfimo em relação ao universo de indivíduos que sofrem algum dano, tais empresas não dão a menor importância ao pequeno prejuízo que desembolsam, em face aos lucros exorbitantes que freqüentemente seus balanços demonstram, em especial no caso de Instituições Financeiras. O que ocorreria, pois, se todos impávidos colossensses utilizassem os serviços do Poder Judiciário para resolver situações nas quais ocorre algum dano, especialmente em suas relações de consumo?

Meu alter ego devaneia que uma mudança de postura seria necessária, uma vez que o lucro começasse a diminuir e os cães-acionistas sentiriam um rombo financeiro em seus balancetes. É provável, destarte, que mudassem sua atitude nas relações com o consumidor, pois como já disse uma vez a estultice capitalista, o bolso é o local mais sensível do cruel tipo homem. Muitos não recorrem a tais serviços jurídicos por preguiça ou ignorância: acreditam que desperdiçariam seu precioso tempo em um serviço que é lento e burocrático. Em outras palavras: submetem-se ao status quo e resignam-se diante dos eventos que ocorrem em sua vida. E esse é o pensamento característico do espírito de rebanho...

Para uma transformação social efetiva, devaneia meu alter ego, é necessário a ação individual contra os abusos das grandes corporações! O Poder Judiciário parece-me uma excelente oportunidade para quem está cansado de ser feito de fantoche por tais instituições e, além de eventuais ganhos pessoais, ajuda a desintoxicar as relações capitalistas do cruel tipo homem.

Namaste!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Eterno Retorno segundo Oswaldo Montenegro









Agonia


Se fosse resolver
iria te dizer
foi minha agonia
Se eu tentasse entender
por mais que eu me esforçasse
eu não conseguiria
E aqui no coração
eu sei que vou morrer
Um pouco a cada dia
E sem que se perceba
A gente se encontra
Para uma outra folia

Eu vou pensar que é festa
Vou dançar, cantar
é minha garantia
E vou contagiar diversos corações
com minha euforia
E a amargura e o tempo
vão deixar meu corpo,
minha alma vazia
E sem que se perceba
A gente se encontra
Para uma outra folia

sábado, 18 de outubro de 2008

A Bolsa, o Circuit Breaker e a Ciranda Financeira

Ciranda Cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar

O Anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou

Por isso dona Rosa
Entre dentro desta roda
Diga um verso bem bonito
Diga adeus e vá se embora

Vamos dar volta e meia, volta e meia vamos dar

Estava eu navegando despreocupadamente na grande rede quando deparei-me com a notícia da queda dos papéis das Bolsas de Valores de todo o mundo. Numa economia globalizada, alguém espirra nos Estados Unidos e em pouco minutos ocorre uma gripe na Europa, seguida de pneumonia na Ásia. A economia impávido colossensse, sempre subserviente ao capital especulativo internacional, também sofre com os disparates dos cães-acionistas.

Há tempos que julgo patético e até um pouco divertido ver os operadores das bolsas de valores e seus respectivos representantes atônitos com as oscilações do mercado. Ora, o capital virtual que só existe no mundo fictício dos papéis das ações das grandes corporações é o bem mais precioso destes animais famintos por lucro acima de tudo. E, quando sua suposta riqueza está em crise, o que fazem? Correm feito cordeirinhos para investimentos mais seguros, como o ouro, por exemplo. Desta forma, deixando um grande buraco na economia, que por sua vez é freqüentemente coberto por porcos receosos de uma crise em escala global.

Chama-se circuit breaker o dispositivo que suspende o pregão quando as ações caem a um determinado patamar perigoso (algo como 10%). Assim, há um intervalo em geral de 30 minutos para que todos os interessados possam refletir sobre o que estão fazendo ali, questionarem-se sobre o sentido da vida etc., tentando aliviar a situação para um novo recomeço dos negócios em seguida. Na verdade, tal mecanismo evita a desgraça em níveis insustentáveis, tal como ocorreu em 1929, no famoso crash da bolsa estadunidense. Nessa oportunidade, a quebradeira foi geral, não houve ajuda do governo e muitos investidores suicidaram-se diante da perda total de seus preciosos recursos.

E, ao pensar em todo este estado de cousas, um louquejar ocorreu-me: o que ocorreria, pois, se o circuit breaker fosse eliminado das operações da Bolsa de Valores e, numa iminente repetição da crise de 1929, houvesse quebradeira, falência e suicídio de grandes investidores? O estrago seria grande, deduzo, mas a médio e longo prazo a tendência é que a economia global se recuperasse de forma mais sólida e não entrasse em colapso cada vez que uma grande corporação vai à falência. Tal catástrofe seria oportuna para uma reflexão em escala mundial sobre a importância e, especialmente, o poder das grandes corporações e suas ações no mundo globalizado que vivemos. Pode o cruel tipo homem viver sem o mercado de ações e sua fantasia de lucro fácil através de dinheiro virtual?

Porque, no final das contas, o dinheiro estatal que é usado para acalmar os descontrolados e sensíveis investidores é o dinheiro dos impostos que o monstro frio rouba diariamente daqueles que efetivamente criam algo. O estado, esta entidade que nada cria, e por isso tem de roubar (e dá o nome de imposto ao seu roubo), não deveria usar dinheiro público para socorrer grandes corporações ou investidores; ao contrário, deveria deixar a quebradeira correr solta, oferecendo na melhor das hipóteses ajuda funerária para aqueles que optarem por tal caminho, como em 1929. Lavando às mãos ao melhor estilo de Pilatos, ajudaria a eliminar o ideal de ganância a todo custo que se faz presente quase que instintivamente em todos os cães-acionistas que não tem a capacidade de ver e nem ser nada além do ideal especulativo de aumento de capital a todo custo.

Namaste!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O Teatro Corporativo

Estava eu a observar a construção de um prédio localizado num centro comercial de uma capital Impávido Colossensse quando ao meu lado passou em alta velocidade um trabalhador de escritório. Tal pressa ocorre pois precisava concluir uma tarefa o quanto antes, imaginei. Foi então que comecei a observar mais atentamente o comportamento do tipo homem a trabalhar em escritórios dos mais variados tipos e percebi o quão intensa é a sua atuação como ator e o seu sofrimento.

A noção do que seja trabalho ainda está intimamente ligada ao conceito industrial do início do século XX. Um ambiente no qual se deve deixar do lado de fora as emoções, o riso, enfim, tudo aquilo que diz respeito ao prazer individual. Quantas vezes se ri num ambiente profissional? Quantas vezes saímos no meio do expediente, à tarde, para passear porque o dia está bonito demais para ficar trancado num ambiente onde não há vida? Tal postura seria um absurdo para os macaquinhos tomadores de café e babadores de barriga cheia após o almoço!

Expressões sérias e preocupadas, como se não houvesse nada além na vida do que satisfazer aos interesses de cães imundos e ajudá-los a aumentar seus lucros, são um indicativo de doença em estado avançado. Para muitos o teatro se faz necessário para representar que de fato estão preocupados com o que estão a fazer (quando, muitas vezes, estão a representar).

Não é por acaso que a chamada hora feliz (happy hour) é o momento de tempo imediatamente após o término do expediente: a felicidade reside em não estar no ambiente de trabalho! E por quê isso ocorre? Por quê ao gozar férias o tipo homem não raro viaja alucinadamente buscando conhecer tudo e todos, fazendo roteiros milimetricamente programados, com o objetivo de aproveitar ao máximo o medíocre percentual de menos de 10% de tempo realmente livre que a empresa lhe oferece anualmente (e freqüentemente apenas por imposição da lei)?

O ambiente de trabalho é concebido para que o sujeito não tenha prazer. Trabalho e diversão são, em geral, segundo o ideal de Ford, coisas que não se misturam: para tudo há o tempo certo, assim urra a besta industrial. O conceito de trabalho é semelhante ao conceito de culpa intimamente ligado ao estado doentil christão: o prazer está sempre no porvir, é necessário sofrer antes para obter o deleite posterior. Ora, tal visão trata-se da velha forma de dominação pela negação do prazer, coisa que os christãos conhecem tão bem.

Meu alter ego devaneia que um escritório ideal é aquele em que os símbolos da Sociedade Industrial seriam abolidos, como o cartão ponto, o controle de horas e, especialmente, a subserviência. Ao invés disso, a desconstrução do ideal de tempo e de controle de horas, sendo o indivíduo (e não funcionário - aquele que executa uma função) o senhor de suas ações, comprometido apenas em auxiliar na busca dos objetivos da empresa, ao mesmo tempo em que também é responsável pela definição de tais objetivos, dentro de sua visão global de mundo. Um indivíduo pleno, pensante e alegre, cujos interesses pessoais, profissionais e socias se confundem de tal sorte que a fronteira entre trabalho e prazer deixaria de existir...

Até tal realidade torna-se real, serão necessárias muitas horas felizes para compensar a quantidade absurda de horas infelizes que o medíocre tipo homem desperdiça diariamente, num lento e gradual suicídio.

Namaste!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Across the Universe

Estava eu navegando despreocupadamente na grande rede quando deparei-me com uma notícia deveras triste para os apreciadores da boa música: o falecimento de um músico e fundador do Pink Floyd, Richard Wright. Como Syd Barrett em 2006, agora Wright transcendeu ao plano imaterial do absurdo. Assim, a possibilidade de assistir a maior banda de todos os tempos novamente em sua formação clássica não existe mais.

E, ao pensar na qualidade musical dos dias atuais, com grupos que mais parecem saídos de desenhos animados, com letras sem conteúdo e virtuosismo duvidoso, pensei em uma banda inglesa que, apesar de ser considerada por muitos como a maior de todos os tempos, meu alter ego devaneia que os Beatles ocupam o honroso segundo lugar, através justamente do Pink Floyd. É que comparar estes dois grupos é uma tarefa difícil, pois são dois estilos diferentes: enquanto a virtude de um está na complexidade musical e conteúdo filosófico profundo, a virtude de outro está na simplicidade e conteúdo mundano.

Nem por isso, entretanto, meu alter ego deixa de valorizar tal estilo e reconhecer a importância dos músicos de Liverpool na história da música. E, um dia antes da morte de Wright, assisti ao musical Across the Universe, que é uma homenagem aos Beatles e cujas músicas são cantadas pelos próprios atores. Nada como um musical! Unir música e cinema é algo que, se bem feito, pode gerar resultados muito interessantes. The Sound of Music, Hair e até Moulin Rouge... todas boas opções.

A história em si possui um roteiro simples (tão simples quando uma música dos Beatles), mas um ponto merece análise. O dilema fundamental da trama reside no fato do jovem inglês Jude, que foi aos Estados Unidos em busca de suas origens, estar apaixonado por Lucy, jovem estudante sem maiores preocupações. Tudo vai bem até que ela se envolve em questões políticas contra a guerra do Vietnã e termina por dividir-se entre o relacionamento com Jude e a entrega à causa política.

Será que a realização individual alheia aos acontecimentos que cercam o indivíduo é possível? Por outro lado, não é deveras perigoso a entrega incondicional a uma causa que, para vencer o inimigo, utiliza as mesmas armas de porcos e cães? Não é um risco demasiado estar tão próximo ao abismo a ponto do próprio abismo e do próprio indivíduo confundirem-se numa única coisa? Questões cujas respostas são peculiares de cada tempo e sujeito... Across the Universe, como era de se esperar, escolheu o caminho da realização individual, unindo novamente o casal, à margem das questões de seu tempo.

Os Pink Floyd, apesar de toda à crítica social presente em seus álbuns, talvez seguissem um caminho semelhante, como fica notório em Animals, álbum conceito que demonstra com as duas partes de Pigs on the Wing que seria possível transcender ao mundo ordinário composto por cães, porcos e ovelhas através da união incondicional entre dois indivíduos.

Namaste!

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Across the Universe (2007)

» Direção: Julie Taymor
» Roteiro: Dick Clement e Ian La Fresnais, baseado em estória de Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Fresnais
» Gênero: Musical
» Origem: Estados Unidos
» Duração: 131 minutos

» Sinopse: Um casal apaixonado se envolve nos movimentos da contracultura de Liverpool nos anos 60. Dirigido por Julie Taymor (Frida) e com Evan Rachel Wood e Bono no elenco. Recebeu uma indicação ao Oscar.

Fonte: Adoro Cinema

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Os Porcos do Porvir

Uma das coisas mais divertidas do período eleitoral no Impávido Colosso é assistir a propaganda eleitoral gratuita, tanto na televisão, quanto no rádio. Poucos países têm este privilégio e sinto-me orgulhoso em viver em terras com tamanha consciência democrática! Afinal, é deveras importante conhecer os candidatos que governarão a nossa nação nos próximos anos.

Por isso, meu alter ego teve o louquejar de selecionar alguns candidatos e exibi-los com destaque neste espaço de voyeurismo pós-moderno, comentando seu excelso pensamento, de modo a ajudar o eleitor da Capital Mundial da Carroça a decidir o seu voto nas eleições vindouras.

Alcunha: Jacaré
Excelso Pensamento: Sou motoboy e sou da periferia. Quero representar a nossa categoria. Quero que não faltem creches e vagas nos berçarios.
Alter ego comenta: Excelente! O que precisamos é de pessoas que dirijam o país com a mesma competência que os motoboys trafegam pelas ruas impávido-colossensses.
















Alcunha
: Marco Della Nina
Excelso Pensamento: Quanto vale um voto, um galeto, um rancho, uma promessa. Todas as eleições é a mesma coisa. E eu, que não faço isso, não consigo o seu voto.
Alter ego comenta: Nem conseguirá até distribuir galetos ou ranchos para as pessoas que têm fome! Talvez assim consiga mais votos além dos da esposa e mamãe...
















Alcunha: Renato Oliveira
Excelso Pensamento: Tartaruga fora-da-lei eu já cansei. Vote nele e nela, Renato e Manuela.
Alter ego comenta: excelente opção para todos que já cansaram de tartarugas que não respeitam a lei e para aqueles que adoram cannabis sativa.
















Alcunha: Deneci (Rochinha)
Excelso Pensamento: Chega de abobrinha! sem mentira, sem promessas!
Alter ego comenta: A mentira e a promessa são os sustentáculos da política tupiniquim. Como bom político, o candidato mente ao dizer que não mentirá, nem fará promessas.















Nota esclarecedora: os candidatos supra concorrem a vereância e meu alter ego decidiu escolher tal categoria visto que são os embriões da genuína política nacional e, no futuro, aqueles que farão vôos mais altos (deputadoria, senadoria e até presidência...).

Namaste!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Um Ano Louquejando em Papua Nova Guiné

"O que destrói um homem mais rapidamente que trabalhar, pensar e sentir sem uma necessidade interna, sem um profundo desejo pessoal, sem prazer - como um mero autômato do dever?"

Nietzsche, em O Anticristo

Estava eu entretido observando a ordenação simétrica de um conjunto de formigas quando, ao retornar à realidade sentindo o chão a tremer em função da fúria da mãe terra, percebi que o tempo passou e este espaço de voyeurismo pós-moderno estava completando um ano de existência.

Pois seja: um ano louquejando com chá! Meu alter ego não imaginava que isso fosse possível. Assim como ocorrem nas empresas Impávido-colossensses, que em geral findam cedo, igualmente os web-blogs espalhados na Grande Rede também têm vida curta. Ocorre que para o tipo homem a persistência é uma virtude pouco desenvolvida pois, na verdade, ele promete ser melhor, mas esquece.

E, pensando em todo este estado de coisas, um louquejar ocorreu-me: como, na verdade, este blog é um anti-blog que difere significativamente dos que se encontram por aí. Aqui os textos são longos e com devaneios, divagações, reflexões, inflexões, pré e pósflexões e ocorrem poucas publicações ao longo de um mês (imagina, caro leitor, vários louquejares ao dia, não há chá que sustente!). O texto é rebuscado e não pretende esclarecer o nobre leitor, tampouco ser amigável, claro ou objetivo. Meu alter ego escreve com o coração e quem assim o faz escreve antes de mais nada para si mesmo e não para outrem.

Ao pensar, porém, que alguns leitores já manifestaram algumas dúvidas e, devido a emoção da data, resolvi num gesto altruísta responder às perguntas freqüentemente realizadas e, assim, trazer respostas a um mundo que anseia por objetividade e superficialidade.


#
O seu alter ego realmente toma chá com pimenta ao escrever os posts? E por que Papua Nova Guiné?

R: Sim, tomo-lo. Senão fisicamente, em meus louquejares. E Papua Nova Guiné é um local mágico, como as Ilhas Bermudas, Pasárgada ou a Ilha de
Lost.

#
Qual o sentido do blog?

R: Aliviar a tensão da estupidez ordinária do estar-vivo ao mesmo tempo que ocupo o meu tempo com coisas realmente importantes, como louquejar ou devanear.

# Por quê o seu alter ego utiliza o termo Impávido Colosso para se referir ao Brasil?

R: No hino nacional, o alter ego brasileiro se autodefine como és belo, és forte, impávido colosso. Como aqui quem escreve não sou eu, mas meu alter ego, nada mais apropriado que se referir diretamente ao alter ego tupiniquim.

# Por quê ao término de cada post há a saudação "namaste"?

R: Porque assim o quer o espírito de gravidade.

# O seu alter ego é contra a democracia?

R: Não, sou plenamente a favor. Porém apenas a legítma democracia, que é a democracia grega. O modelo democrático atual é falso sob qualquer ângulo que se analise.

# Chá com pimenta é na verdade uma metáfora para psicotrópicos?

R: Chá com pimenta é o supra-sumo da psicotropia com uma dose cavalar de louquejares.

# Como acontecem os louquejares que dão origem aos posts?

R: É um processo semelhante ao recebimento de espíritos por pais-de-santo. Como se sabe, os espíritos estão por aí vagando querendo ser recebidos por entidades. Da mesma forma, louquejares também estão por aí, mas é preciso estar disposto a recebê-los. E, ao recebê-los, não temê-los; e sim transcendê-los.


Com tais respostas, meu alter ego espera esclarecer o nobre leitor e diminuir suas dúvidas a respeito do que aqui encontra. Caso ainda existam questões, mande-mas que, talvez, no próximo ano meu alter ego as responderá.

Namaste!

sábado, 2 de agosto de 2008

O Político, O Eleitor e a Democracia

Estava eu admirando a composição caótica de nuvens que se formam com alguma freqüência nos céus do Impávido Colosso quando, ao perceber que dois cidadãos conversavam animadamente a respeito de política e o sistema democrático, um louquejar me ocorreu. Considerando que os políticos são, em geral, vistos com desconfiança e são rotulados de incompetentes e corruptos, alguma coisa deve mudar no sistema atual para evitar, ou ao menor diminuir, a incidência desses elementos que assombram o tipo ordinário impávido-colossensse.

Pois bem: louquejei que no decadente sistema democrático é o povo que, teoricamente, elege seus representantes, que por sua vez também são o povo, porém corrupto! Afinal, as pessoas da patuléia não são corruptas ou incompetentes, apenas a classe política. Então por que não responsabilizar o povo pela escolha de seus representantes? Nada mais justo, nada mais recto...

Tal sistema poderia funcionar mais ou menos assim: ao término de cada mandato, através de diversos critérios, o político seria avaliado em relação ao seu trabalho. Um bom critério é: quantas promessas de campanha foram cumpridas? Caso atingisse um conceito A seria reeleito automaticamente, sem precisar concorrer novamente. Isso evitaria que ele perdesse tempo e dinheiro tentando buscar votos. Por sua vez, o eleitor que tivesse votado em tal político ganharia o direito de seu voto ter peso dois nas próximas eleições (isto é, seu voto valeria por dois).

Já se o político tivesse um desempenho ruim, com uma avaliação geral abaixo de 50%, o mesmo sofreria um impeachment espontâneo - ficaria inelegível por 4 anos, até as próximas eleições. Da mesma forma, o eleitor que nele tenha votado também não poderia exercer o seu direito democrático e ainda seria punido tendo de ser mesário nas eleições vindouras.

Aos eleitores que consecutivamente tenham votado em políticos cuja avaliação tenha sido ruim por 3 vezes seguidas ficariam impossibilitados de votar permanentemente e nos dias de eleição deveriam desfilar por pelo menos 2 horas pelas ruas de seu distrito eleitoral com fraldas como forma de alegrar aos demais cidadãos e refletir sobre a cagada que fizeram. Da mesma forma, políticos com desempenho ruim por várias vezes ficariam inelegíveis ad eternum.

Não é um louquejar revolucionário? Com este modelo, até o meu alter ego conseguiria aceitar a tal democracia, visto que estaria encaminhando-se para um ideal mais próximo à verdadeira democracia, além de tornar mais divertida a vida dos impávido-colossensses.

Namaste!

domingo, 20 de julho de 2008

Considerações Matemáticas e Financeiras

Estava eu entretido dissecando todos os campos e instruções de um boleto bancário quando, por engano, efetuei o pagamento de uma conta antes de sua data de vencimento. Fiquei procurando no tal boleto se havia alguma referência a descontos a quem paga uma conta antes de seu vencimento. Sim, pois os encargos e sanções ao atraso são bem conhecidos, mas para adiantamentos, nada encontrei que pudesse me beneficiar.

Efetuei, certa fez, o pagamento de uma fatura de 10 reais no valor de $10,01, emprestando um centavo à organização para devolução futura. Pois no mês seguinte, como o meu empréstimo não foi detectado, recebi o boleto no valor de $10,00 e o paguei em $9,99, restituindo-me o centavo emprestado, sem cobrar nenhum tipo de juro por isso. Para minha surpresa, ao tentar modificar o contrato futuramente, não pude fazê-lo, pois me encontrava em inadimplência de $0,01!

E, ao pensar em todo este estado de coisas, lembrei-me de uma disciplina que é ministrada em cursos superiores com interesse específico a introduzir os conceitos básicos da matemática financeira. Um dos assuntos pertinentes atendia pelo pomposo nome o valor do dinheiro no tempo. Pois seja! Tal visão nos mostra, em síntese, que uma quantidade qualquer de dinheiro hoje valerá mais progressivamente à medida que o tempo desfila diante de nosso incrédulo olhar, embasbacado pelo absurdo do estar-vivo.

Ocorre que tal disciplina não ensina que a lógica funciona de forma um pouco diferente, de acordo com quem detém o chicote. Por exemplo, se eu emprestar para uma instituição financeira dois mil reais, ao longo de um mês e considerando uma aplicação financeira simples, obterei rendimentos em torno de 0,6%, que resultaria em $12,00. Com esse dinheiro, é possível almoçar em um restaurante de nível médio uma única vez. Já se a situação contrária ocorre, isto é, da instituição financeira emprestar-me tal quantia, no final do mês terei de pagá-la a título de juros a módica quantia que varia entre 6% e 9%. Considerando a média aritmética de 7,5% chega-se ao valor de $150,00! Ao invés de almoçar uma única vez, o cão-bancário pode fazê-lo por 12 vezes ao longo de um mês! É uma desproporção absurda que ajuda a aumentar os lucros estrambóticos de tais instituições impávido colossensses! Se se aplicar juros de cartão de crédito, cujo percentual aumenta para algo em torno de 12%, o número de almoços sobe para 20!

Quando alguém abdica de ganhar 0,6% do mercado legalizado e empresta dinheiro a juros para outrem é chamado de criminoso e rotulado de agiota. Sim, se todos fizessem isso, como as instituições bancárias manteriam seus astronômicos lucros e dessa forma alimentariam seus cães-acionistas? Meu alter ego acredita que guardar dinheiro embaixo do colchão é uma atitude revolucionária e pode salvar a humanidade de sua estupidez e ganância, além de ajudar na derrocada do modelo financeiro atual. Ao emprestar dinheiro a um semelhante, para não incorrer no crime de agiotagem, pode-se combinar o seguinte: ao final do mês, o devedor possui o compromisso de pagar alguns almoços para o credor, além da quantia emprestada. Dessa forma, ambos poderiam saborear o prazer ímpar da confraternização gastronômica, ao mesmo tempo em que eliminariam o indesejado cão-acionista do banquete.

Namaste!

terça-feira, 15 de julho de 2008

As Cotas da Ignorância

Estava eu navegando despreocupadamente na Grande Rede quando li uma notícia a respeito de uma decisão judicial, a qual negava o direito legítimo de um estudante freqüentar uma Universidade Pública, mesmo tendo sido aprovado e estando dentro da faixa de vagas disponibilizadas para o curso escolhido. A causa para a negativa era a implantação de cotas raciais, que reserva um percentual de vagas para sujeitos pertencentes a raça negra (ou próximo a isso). Tal medida visa a garantir um equilíbrio racial no Impávido Colosso, ao mesmo tempo que busca resgatar uma dívida histórica com os negros impávido-colossensses, em função do tempo em que foram subjugados como escravos pelo cruel homem branco.

A idéia de cotas pode, em primeira análise, parecer ser justa. Justa, bondosa e promotora de justiça social! Ao que me lembro das palavras do filósofo Nietzsche: "...justa e bondosa como são justos e bondosos grãozinhos de areia com grãozinhos de areia!". Na verdade, devaneia meu alter ego, a cota racial é uma atitude racista que parte do pressuposto que o negro é inferior intelectualmente ao branco, e por isso precisa ser protegido. Pois o pseudo-argumento de que, oriundos de família em geral pobres e sem possibilidade de competir igualitariamente, os negros teriam a oportunidade de ingressar na Universidade pela porta dos fundos, isto é, através do paliativo do uso de cotas. Na verdade, questiono-me a mim mesmo: e toda a sorte de pessoas não-negras e pobres, que também não tem a prerrogativa de preparação adequada para ingressar na Universidade Pública? Mais justo seria existir apenas a cota para pobreza, pois do contrário segrega-se perigosamente a sociedade em função da cor da pele de seus indivíduos. As melhores intenções em geral produzem os piores resultados e ajudam a aumentar os conflitos sociais de uma sociedade já deveras doente e decadente.

Outro ponto problemático de tal lei é a definição de quem é e quem não é negro. Ora, o Impávido Colosso é um agrupamento humano no qual a maioria da população é miscigenada e a detecção de raça e cor é realizada de forma auto-declarativa. Um casal formado por um tipo branco e outro negro tem dois filhos, um com a pele clara e outra com a pele escura. Ambos estão inseridos no mesmo contexto social. Aquele que tiver pele clara poderá gritar em alto e bom tom que também é negro, visto que um de seus pais o é? E nem por isso será considerado menos ou mais apto intelectualmente e poderia utilizar-se da prerrogativa de cotas raciais.

São por estas questões que desafiam a lógica que meu alter ego acredita que o melhor para os povos é a autopreservação: mantendo a sua identidade racial, também mantém-se a sua identidade cultural, já que um conceito está intimamente ligado ao outro. A miscigenação é positiva entre raças de culturas semelhantes, pois renova o sangue e revilaliza a raça, porém a miscigenação indiscrimida gera confusão e resulta na morte dos povos, suas culturas e identidades.

O que de fato os pseudo-entendidos no assunto deveriam pensar é em investir no aumento do número de vagas nas universidades públicas. Mas como fazê-lo se não há recursos? Pois seja, a desculpa de que não existem recursos para tal é facilmente combatido com a assertiva de que é fácil criar novas vagas sem grande esforço: bastaria que os alunos pagassem pelo ensino que hoje obtém gratuitamente. Não na proporção de uma mensalidade de universidade privada e não para todos, mas para aqueles que podem pagar. Um estudante cuja renda familiar é de R$ 10 mil/mês pode perfeitamente pagar R$ 500/mês como retribuição ao ensino que recebe. Alguém com renda inferior contribui com uma quantia menor, ou mesmo com trabalho voluntário. Esta é revolução que o ensino necessita para promover a verdadeira justiça social, e não a limitada e injusta visão de mundo que pretendem aqueles que apoiam as cotas raciais em universidades públicas.

Tal medida é correta e justa e deveria ser adoptada nas universidades impávido-colossenssem. Mas o que vejo é uma gritaria em torno da "universidade gratuita" e mesmo aqueles que poderiam pagar querem ter um ensino sem oferecer nenhuma retribuição à instituição que o formou. Ora, cada um pagar aquilo que pode, de acordo com sua renda familiar, é algo que geraria receita e serviria para, não apenas dignificar o salário dos professores, quanto para qualificar a infra-estrutura em geral, além de possibilitar um aumento significativo do número de vagas. Ao invés de debater sobre questões verdadeiras, a sociedade debate-se em torno de pseudo-questões como a esdrúxula cota racial implantada em algumas universidades.

Namaste!

terça-feira, 3 de junho de 2008

Teoria do Absurdo

Estava eu a navegar despreocupado na Grande Rede quando, ao consultar o Grande Oráculo, descobri um web-blog deveras interessante, cujo ponto fonte é a irreverência e crítica a respeito do estar-vivo. Sempre utilizando - como o próprio nome sugere - de teorias de toda a ordem para explicar o inexplicável, ou ao menos praticar aquela masturbação mental que tanto agrada ao meu alter ego.

E, ao olhar o histórico do blog, descobri uma teoria muito interessante, chamada Teoria Geral do Absurdo. Nela, busca-se explicar o estar-vivo sob a óptica da impossibilidade de explicação, isto é, o absurdo. Tal teoria foi escrita há 10 anos pelo meu alter ego, quando recém estava a nascer os seus primeiros louquejares. Por isso, reproduzo-a abaixo na íntegra. Hoje ele não pensa exatamente da mesma forma, pois devaneia que, maior importante que chegar a conclusão que viver é absurdo, o maior interesse diz respeito à interpretação que o sujeito realiza com base nessa constatação e como é possível transcender a certeza da dúvida do estar-vivo sem precisar recorrer a amuletos como as religiões, os partidos políticos, o niilismo e coisas do gênero.

Namaste!

Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria:

- Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.

(Saramago)

Teoria Geral do Absurdo

Tudo que existe é absurdo. Logo, viver é absurdo. Esta é a conclusão final que cheguei, por ora, sobre o significado da vida, do estar-vivo, enfim, sobre a condição humana. Primeiramente esclarecerei em nível conceptual esta afirmação. Depois, em nível filosófico e por fim mostrarei que esta afirmação em nada se contrapõe às empiricamente concebidas pelo homem ao longo de sua história.

Por absurdo entende-se tudo aquilo que é contrário às leis da lógica ou é irredutível a elas. O facto de eu estar vivo decorre do facto de meus ancestrais um dia terem estado vivos, assim até o primeiro homem ter surgido. Sabe-se com o apoio da Teoria do Evolucionismo que o homem não surgiu completo, ou seja, não foi criado simplesmente. Ele evoluiu de outras espécies até chegar no estado denominado Homo Sapiens Sapiens. Assim também ocorre com todas as espécies vivas. Mas, perguntarei, aonde teve início a primeira espécie, o primeiro ser vivo? Disso não se pode ter certeza, mas acredita-se que tenha sido uma ameba, ou algo minúsculo. Através de milhões de anos, os seres foram evoluindo até chegar ao nosso tempo. Esta pergunta fica sem resposta, mas não dificulta em nada o entendimento sobre a o Teoria do Absurdo.

Não se sabe ao certo a origem do Universo. Entretanto, a teoria mais aceita é a da Grande Explosão (Big Bang), que reza que o início de tudo deu-se através de uma grande explosão. Antes, nada havia, ou tudo havia (o termo aqui transcende à lógica). O que havia era simplesmente uma quantidade de energia suficiente e gigantesca com força para criá-lo. Um erro fácil é imaginar que tudo que há é o que vemos. Com efeito, calcula-se cerca de 80 bilhões de planetas existentes no Universo. Isso daria em média 13 planetas para cada habitante do planeta terra. É provável que exista vida em outras planetas, até porque seria muita pretensão achar que somente nós seríamos contemplados com o absurdo.

O âmago da questão refere-se à criação de tudo que há, o momento zero. Surge duas hipóteses sobre o que ou quem criou esta energia: ou este algo sempre existiu (então pode ser chamado de Deus, ou qualquer outra coisa, não configurando em nada um Criador que fez do homem à sua imagem e semelhança), ou então foi criado por outra coisa, assim até chegar num ponto que algo tem que ter sido criado de algo. De qualquer forma, como o conceito de infinito é absolutamente incompreensível para o lógica humana atual, viver é absurdo, porque o estar-vivo é conseqüência da Grande Explosão.

A situação piora quando pensa-se que tudo que há, há porque um Deus criou (neste sentido, um Deus criador e pai). Mesmo assim, viver continua sendo absurdo, mas desta vez pela via oposta, ou seja, a de que tudo que existe tem uma razão de ser, porque Deus quis, e disso não se pode escapar. Assim, viver seria absurdo porque o acto de viver seria demasiadamente lógico, configurando-se em absurdo.

Esta não é, certamente, uma teoria de salvação. É uma teoria baseada no mais alto grau da condição animal, baseada no que de mais incrível e fantástico um animal pode ter, que é a sua capacidade de pensar. Poder-se-ia dizer que isso é a prova de [a idéia] Deus. Não discuto se é ou não, até porque é impossível saber. O que me parece claro é que viver é uma imposição. Ninguém escolhe nascer. Assim, este Deus não passa de um manipulador de fantoches, porque quando se é, não se sabe como se não é. E quando se não é, não se sabe como se é. Dessa forma, fica evidente que não temos escolha com relação ao estar-vivo, muito pelo contrário: o homem é um ser limitadíssimo, somente mais evoluído em relação aos seus irmãos biológicos porque pensa, e pensar não significa algo bom ou ruim, melhor ou pior: estes conceitos foram criados pelo homem, de nada valem, não servem como leis, carecem de totalidade. Um animal irracional simplesmente é, vive o que tem que viver, e isso é tudo. O homem cria fantasias, mitos, lendas etc., mas isso não passa duma realidade subjetiva, sem valor efetivo.

Outro ponto que quero esclarecer, e que me parece ser a chave para muitas respostas. A maioria das pessoas não pensa... O homem, em sendo um animal, não foi feito para pensar. Deve viver. E quem pensa não vive [apud Sartre]. Pois bem: o método empírico é sempre anterior ao racional. Ora, o conceito de Deus é a explicação empírica do homem para explicar o inexplicável. Entretanto, este inexplicável é relativo: volta-se dois mil anos no tempo e ter-se-á um homem reverenciando o Deus da chuva, ou o Deus do fogo. Hoje, sabe-se que a causa da chuva ou do fogo não é uma acção direta de Deus. Logo, quanto maior for o conhecimento, menor será a crença em divindades para explicar o inexplicável. E nisso reside o ponto chave desta tese: já que a maioria das pessoas não pensa, talvez por acomodação, talvez por ignorância, é mais fácil crer num Deus providencial para explicar o que não se consegue entender. Dessa maneira, claramente percebe-se o caráter superficial que qualquer crença religiosa adquire, não suportando a mínima crítica.

Com efeito, não pretendo ser dogmático como procedem as religiões. Aliás, considero a possibilidade de eu estar completamente equivocado com relação às minhas teses. Não morreria por elas, de forma alguma. Como cada afirmação necessita de outra para se completar, assim num processo infinito (absurdo), o que me importa é a discussão em torno de argumentos. De uma maneira geral, não condeno quem crê em dogmas religiosos ou leva uma vida superficial. É mais fácil viver assim. Evita-se o sofrimento. Esta não seria uma função da religião? Pois bem, viver em ilusão, crer em algo que não existe, se assim proceder a maioria, não será motivo de tormento. Porém, depois de se encontrar o caminho, depois de se conseguir ver criticamente as coisas, fica muito difícil seguir a maioria. Por fim, vale um consolo: o sofrimento em nível biológico é uma prova da nossa superioridade evolutiva. Como o conhecimento é infinito, a ignorância também o é. Logo, é impossível saber tudo. Assim sendo, quanto maior for o conhecimento de alguém, também será maior a sua ignorância. Busco, por fim, ficar mais ignorante do que já sou.


Alter Ego, 05/11/1998

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Cheiro do Ralo

Assisti recentemente a uma ótima película do cinema tupiniquim chamada O Cheiro do Ralo. Uma produção simples, sem os super-mega-ultra-efeitos do enfadonho cinema estadunidense, a qual convida ao telespectador à reflexão acerca dos valores da sociedade atual. No filme, um comerciante de meia-idade compra objetos usados de seus desesperados clientes, estabelecendo uma relação mercantilista e por vezes sarcástica com o desespero humano em busca de dinheiro. Ele compra vários objetos, mas não vende nenhum! Como se fosse possível armazenar em seu pequeno esconderijo todas as riquezas humanas, obtidas em geral a preço vil. Tal relação é um reflexo da sociedade contemporânea: consumista, patética e com o ideal lucrativo acima de tudo. Os objetos compráveis deveriam - numa sociedade saudável - ser apenas os meios para coisas mais preciosas, como as idéias e a arte, e jamais fim em si mesmos.

E, à medida que mais objetos adquire, o ralo de seu escritório começa a feder por um problema estrutural de seu banheiro. No início o cheiro o desagrada, mas com o decorrer da história ele passa a tolerá-lo e por fim passa a gostá-lo de forma quase bestial, tal qual o tipo homem venera indicadores econômicos, bolsa de valores e crescimento econômico. Como se tais coisas em si tivessem algum valor e pudessem ajudar a elevar a condição animal do cruel tipo homem!

No meio deste estado fétido de coisas, porém, havia uma esperança de felicidade em algo que ele não podia, aparentemente, comprar: o corpo de uma garçonete cuja lanchonete freqüentava regularmente. Não por acaso, a bunda de tal mulher torna-se obsessão para o sujeito, que com isso consegue ver a beleza na sujeira, pois tais coisas estão próximas em tal região. Neste ponto, estabelece-se uma relação entre os dois, cujo progresso depende de uma mudança de percepção do sujeito em relação aos seus próprios valores do estar-vivo. Mudança esta que é deveras difícil para o tipo homem perceber e aceitar.

Por fim, uma menina que freqüentava seu escritório e vendia peças roubadas de sua casa para conseguir dinheiro para sustentar o seu vício, termina por atirar no anti-herói contemporâneo e, com isso, vingar-se das humilhações que passou nas vezes que ali esteve.
Ah, este é o final do filme, caro leitor! Não tive a intenção de revelá-lo, como também não tive a intenção de ocultá-lo! Eu e meu alter ego não nos importamos de saber intelectualmente o final de uma história, pois para nós isso não tira o brilho ou escuridão do momento a posteriori que se viverá. Na vida todos sabemos qual final teremos, mas nem por isso deixamos de vivê-la!
Tal final trágico pode ser comparado como o desespero humano em nível demencial diante da sociedade que o sujeito está inserido (em muitos casos, excluído). Tal menina pode ser reconhecida como os mendigos, pedintes, flanenilhas e toda sorte de infelizes que assombram o homem ordinário no seu dia-a-dia. E muitos ainda se fazem perplexos quando recebem um tiro gratuito e terminam por perder a própria vida em assaltos tão comuns no Impávido Colosso! É que saindo de si e pensando na perspectiva do outro, esquecendo um pouco que ele é o inferno, deparar-se-á com alguém excluído e marginalizado pela sociedade, cujos objetos não pode comprar e, por isso, precisa roubá-los. Na verdade, devaneia meu alter ego, não é tanto pelo objeto em si, mas também pela vingança existencial por viver numa sociedade que o trata como igual, quando claramente não o é, e por julgar que a sua liberdade de nada vale se ele viver na miséria e em sofrimento constante.

Namaste!

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O Cheiro do Ralo (2007)

» Direção: Heitor Dhalia
» Roteiro: Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em livro de Lourenço Mutarelli
» Gênero: Comédia
» Origem: Brasil
» Duração: 112 minutos

» Sinopse: O dono de uma loja que vende objetos usados se vê em apuros após ter que se relacionar com uma de suas clientes, que julgava estar sob seu controle. Dirigido por Heitor Dhalia (Nina) e com Selton Mello no elenco.

Fonte: Adoro Cinema

terça-feira, 13 de maio de 2008

A Fila, O Circo e a Democracia

Num dia destes, entre o primeiro e o segundo cigarro do dia, fiquei estupefacto ao ouvir uma notícia dada por um repórter de uma rádio: uma fila enorme formou-se no Tribunal Regional Eleitoral de uma capital do Impávido Colosso, também conhecida como Capital Mundial da Carroça. É que era o último dia para regularização do título eleitoral e, como não podia deixar de ser, muitos impávido colossensses deixaram para a última hora para ficar quites com a Justiça Eleitoral e, assim, poder exercer o seu direito democrático de votar nas eleições vindouras.

Impávido-colossensses confraternizam em fila democrática

Mas qual não foi o meu espanto quando o repórter perguntou a um dos transeuntes que lá estavam o que exatamente estava fazendo por ali - se tirando o primeiro título ou regularizando - e a resposta foi: "estou aqui acompanhando o meu amigo". Pois seja! O brasileiro adora uma fila, pensei. É um momento ímpar de confraternização entre os pares, cuja alegria pelo burburinho que se forma praticamente anula o tédio pelo demora bestial no meio da calçada.

E, ao pensar neste estado de coisas, um louquejar me ocorreu: como a idéia de liberdade é tida no mais alto nível pela sociedade contemporânea e como tal idéia nefasta representa um engodo que ajuda a manter a sociedade que se propõe a ser igual a ser, justamente, a mais desigual de toda a história universal do cruel tipo homem. O que os profanadores não dizem é que nunca a diferença entre os que mais possuem para aqueles que quase nada possuem foi tão grande. E, ainda assim, muitos louvam tal sociedade e tal sistema democrático que transforma um direito em um dever e diz que todos são iguais perante a lei. Na verdade, devaneia meu alter ego, o tipo homem é desigual por natureza, seja em âmbito cultural, psicológico e, especialmente, intelectual.

As eleições no Impávido Colosso são um circo, com direito a muitos palhaços e animais de toda ordem. Até a obrigatoriedade do ato de votar torna-se uma aberração para o próprio conceito democrático eletivo. E se eu julgar que não estou adequadamente preparado para votar em alguém, e quiser me ausentar de tal processo?! E se pensar em quantos indivíduos sem qualquer preparo intelectual para discernir entre a ideologia de um partido de um candidato ou outro?! Questões que não são tratadas como deveriam e, por isso, tornam o processo eleitoral tupiniquim digno de riso e lamento.

A verdadeira democracia encontrava-se na Grécia Antiga, berço da civilização ocidental, na qual os iguais eram tratados como iguais, e os desiguais, como desiguais. Nada mais justo, nada mais recto. Este conceito se confunde com o ideal aristocrático de sociedade, no qual indivíduos melhor preparados assumem maduramente o comando das decisões e por isso mesmo prestam a assistência necessária aos desafortunados e doentes de toda ordem; para lhes proteger e também a si mesmos. Porque, em verdade, quando se trata um desigual como um igual, dizendo-lhe que tem poder de decisão, quando claramente não tem nenhum, comete-se o ato mais covarde e que gera a mais profunda injustiça entre os homens.

Tais ideais não são bem-vistos no democrática sociedade contemporânea, a qual - com o auxílio da pseudo-ideologia estadunidense - tenta perpetuar-se por todo o mundo, não respeitando culturas diferentes, nem tampouco pensamentos opostos sobre a vida e o estar-vivo. Eu, influenciado pelo meu alter ego, há muitos anos que simplesmente anulo totalmente o meu voto e me rio daqueles que acreditam que este sistema de tal forma possa mudar o status quo, que hoje trata desiguais como iguais, e gera miséria, lixo e desigualdade em proporção jamais vista.

Namaste!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O Rádio, o Terremoto e o Tempo

Num dia destes, na hora do lusco-fusco de um dia monótono, na qual as formiguinhas correm para seus lares acotovelando seus pares num sentimento bestial para chegar rápido, louquejei comigo mesmo a respeito da causa da infelicidade humana, ao mesmo tempo que escutava notícias sobre o terremoto que atingiu o Impávido Colosso há alguns dias.

Meu alter ego pensou em quantos terremotos seriam necessários para mudar significativamente todo o estado de coisas tipicamente tupiniquim, que perdura já há mais de 500 anos! A destruição como condição para a construção, eis uma fórmula simples para se pensar a respeito da condição evolutiva do homo sapiens sapiens.

E, cansando de escutar coisas sobre a realidade do cruel tipo homem, mudei a estação do rádio e deparei-me com um clássico do rock progressivo: Time, do Pink Floyd. Pareceu-me uma ótima canção para aquele momento e passei a ouvi-la e deixei-me envolver pela música, pensando comigo mesmo: o momento a partir do término dos relógios a gritar abruptamente e início do som de batimentos cardíacos, devaneia meu alter ego, é onde encerra o desespero humano aprisionado pela interpretação de tempo que construímos, iniciando-se um momento reflexivo a respeito dos valores próprios que tal interpretação, continuamente falsa, ocasiona na vida ordinária que vive o tipo homem.

Com o fôlego mais curto e a cada dia mais próximo da morte: eis o pensamento de quem fica paralisado diante da percepção do tempo e da nossa incapacidade de alterar este estado de coisas. Por isso, meu alter ego inveja os cachorros, já que eles não negaram a sua condição animal e, ao contrário, elevaram-na a níveis existenciais mais toleráveis. A percepção do presente, livre de passado e futuro, é o único tempo que de fato existe. Mas a sensação que os anos ficam mais curtos, e nunca há tempo sobrando, é a causa do mais profundo sofrimento humano. Por isso, um pensamento de repetição de tudo que há significaria um suicídio para a maioria dos mortais, visto que pensam que só poderia existir felicidade no além-vida.

No final, não há - devaneio eu - maneira de mudar a percepção que temos do tempo a não ser através de um profundo mergulho no pensamento dionisíaco. Mergulho este que, em boa parte dos casos, tem como conseqüência inevitável a perda da razão, o que - para a nossa espécie - significa a perda da própria existência. À excepção de tal possibilidade, suponho que o único fato relevante é que toda a lua é, no final, completamente escura; nós é que desejaríamos que ela fosse diferente...

Namaste!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Emolumentos da Ignorância

Estava eu a esperar por uma autenticação num destes estabelecimentos provenientes da era Industrial quando, na sonolenta espera, recebi por fim a autenticação que fui buscar e, junto com ela, o recibo que dizia: emolumentos. Num louquejar repentino, desnudando o verbete do seu significado intrínseco, pensei cá comigo mesmo que tal palavra servia bem para definir aquele lugar e também aquelas pessoas, cujo trabalho mecânico era estúpido demais para suportar e, como conseqüência inevitável, terminaria por aniquilá-las em absoluto até o precipício humano da mecanização!

Para comprovar com fé pública de um burrocrata que um documento é verdadeiro torna-se imperativo tal autenticação. E, no breve intervalo entre a entrega do documento e recibo, freei o meu instinto libertador de atirar-me para fora daquele ambiente e fiquei sentindo a sonoridade da palavra fatídica emolumentos...

E, ao pensar em todo este estado de coisas, retardei a minha saída do recinto e parei-me para observar o ambiente e constatei que todos ali tinham em sua face uma expressão que me dizia: emolumentos! E, repetindo tal palavra, cortei-a e o novo som que me ocorrera era: emolumentos, emulamentos, emolu, emula, sim, e-m-u-l-e!!! Esta é a palavra dos novos tempos! Um software livre que transporta um mundo de bits da era digital, ao facilitar o compartilhamento de arquivos entre milhões espalhados pelo mundo!

E quais são as semelhanças entre a mula digital e a industrial? Ambas carregam o peso da sua era, porém uma está fazendo o serviço sujo através da inteligência humana, deixando para o homo sapiens sapiens a tarefa de divertir-se e obter conhecimento que beira ao infinito. A outra mula, formada por humanos, refere-se a uma realidade decadente, na qual perpetua-se a ignorância do cruel tipo homem.

E, ao finalmente sair do ambiente, acender meu cigarro e poder respirar ar puro, deixando as emulamentas para trás, não me senti triunfante, mas apenas sereno: pois ao menos meu alter ego conseguiu sobreviver a tal ambiente sem deixar-se contagiar por ele e, rapidamente, um breve poema nasceu ao sol infernal de final de março no Impávido Colosso.

Namaste!

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O Emolumento e a Mula

Emolumentos,
Quantas mulas a carimbar!

Na fila sofrida,
O som da chamada é libertar!

Nem o rosto patético,

Nem o procedimento absurdo,
Far-me-á desisitr.

Finalmento é hora de ir embora
E o som do carimbo a emular
Não me faz delirar!

Porque a verdadeira mula sou eu
Que paga e sustenta
Estas emulamentas!

Alter Ego

sexta-feira, 7 de março de 2008

O Artista, a Obra e a Grande Rede

Ao assistir a festa estadunidense do Oscar 2008 resolvi fazer o que já tinha feito no ano anterior, isto é, selecionar alguns filmes para assistir. Naturalmente o único local onde consegui localizar tais filmes foi na Grande Rede, através de programas de compartilhamento de arquivos. É dessa forma que um louquejar me ocorreu: como estes anônimos indivíduos, que nada ganham ao compartilhar arquivos e disponibilizar serviços, conseguem exercer o ócio criativo próximo de sua plenitude e também como o mundo industrial e os que nada criam estão a ruir porque o seu negócio está em extinção.

Não me refiro ao CD ou DVD comprado em mercado público a R$10,00. Neste caso, são apenas desafortunados vendendo para outros desafortunados cópias em geral de péssima qualidade, uma vez que nem todos podem suportar pagar por cópias ditas oficiais e legais. Refiro-me ao compartilhamento anônimo na Grande Rede, na qual é possível baixar o último capítulo da sua série favorita em poucas horas após o seu lançamento no país de origem, e com direito a legendas e cópia de boa qualidade. Pois somente um alienado poderia supor que alguém pagaria R$100,00 para comprar uma temporada de uma série qualquer, por exemplo, em que menos de 10% do valor termina no bolso do artista, do que buscar na Grande Rede gratuitamente e com a mesma qualidade. Além disso, há o fator tempo: num mundo globalizado, quem esperaria um filme ser lançado no seu país se já foi exibido em seu país de lançamento? Por que eu preciso esperar 6 meses para assistir algo que está a minha disposição facilmente?

A arte está num nível transcendental da criação humana, e possui valor por si só, ao contrário da maioria das tarefas cotidianas que fazemos repetidamente como macacos no dia a dia. Dessa forma, existe melhor retribuição para um artista do que ver o seu trabalho sendo apreciado por vários indivíduos, de diferentes culturas e em várias partes do mundo? A satisfação do outro é o melhor pagamento que se deveria buscar. Mas no mundo capitalista, onde um filme é avaliado por quanto arrecadou em bilheterias e derivados, o conceito de arte transforma-se num engodo comercial, enriquecendo pseudo-artistas e sanguessugas de toda ordem! Sensibilidade e capital são coisas que não combinam, e o artista que por princípio desejar como objetivo primário de seu trabalho obter muito dinheiro corrompe não somente a si mesmo, mas também o próprio conceito artístico e o elemento dionisíaco tão necessário no próprio processo de criação. Pois seja: deixemos os lucros gigantescos para os cães-acionistas, já que é a única coisa que de fato podem possuir, pois nada podem criar e por isso resta-lhes apropriar-se da criação alheia.

Existe mesmo uma cadeia de sanguessugas cujo objetivo é lucrar com a obra alheia. E, naturalmente, para estes quem obtém uma cópia gratuita de seus produtos é um criminoso, visto que atrapalha a fonte que alimenta o seu estado parasital. Distribuidores em geral, governo e seus impostos, patrocinadores, divulgadores, entre outros são uma parte que nada cria, e em nada contribui para a qualidade da obra de um artista. Obviamente me refiro aos verdadeiros artistas, aqueles que não precisam ganhar milhões de dólares e não se incomodam com a suposta pirataria, pois isso diminui seus altos lucros, nem tampouco aos enlatados criados por grandes corporações e cuja qualidade artística é deplorável.

Consumo baixar freqüentemente filmes, séries, documentários e músicas da Grande Rede. E hoje há uma infinidade de opções, graças ao trabalho voluntário de milhares de indivíduos espalhados pelo mundo. Tais indivíduos trabalham de uma maneira muito próxima ao ideal do ócio criativo, pois ao disponibilizar um filme e sua respectiva legenda, o sujeito está estudando um idioma estrangeiro, as ferramentas computacionais para gerar a própria legenda e os mecanismos de compressão para tornar viável a distribuição do filme; está exercitando o seu lazer, visto que não é pago para isso e ainda assim o faz com mais motivação do que se fosse; e, finalmente, está dispondo de algumas horas do seu tempo num trabalho que até não parece trabalho, mas o é em sua plenitude e se aproxima do ócio criativo, visto que há um elemento colaborativo intrínseco no produto gerado. Para o pensamento industrial, tal sujeito é um vagabundo e criminoso, que deveria arrumar algo útil para fazer da vida. Por outro lado, sob uma perspectiva diferente de trabalho, percebe-se que tal esforço produz uma relação de satisfação ímpar e o posiciona na vanguarda das relações de trabalho do século XXI.

O verdadeiro ator encontra-se no teatro; ao encarar o público de frente precisa improvisar e com isso vive aquele momento em toda sua plenitude. De forma semelhante, o músico virtuoso ganha notoriedade ao tocar ao vivo, pois assim mostra verdadeiramente o seu talento, técnica e grandiosidade. Estes sim devem ser recompensados pela sua contribuição em elevar a condição animal do tipo homem através da arte! Ao contrário das superproduções cinematográficas estadunidenses, ou mesmo dos pseudo-atores novelescos do Impávido Colosso, ou ainda dos pseudo-cantores fabricados pela mídia de massa, que em essência constituem lixo em nível demencial. Com auxílio da Grande Rede, devaneia meu alter ego, tendem a desaparecer porque não terão mais a fonte que alimenta seus delírios megalomaníacos de ganho de capital a todo custo.

Namaste!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

As Três Dimensões do Trabalho do Século XXI

Quem leu o meu devaneio a respeito do Ócio Criativo e ficou se questionando a respeito da viabilidade de um modelo alternativo em relação ao trabalho no século XXI, apresento a seguir a justificativa histórica que sustenta economicamente o modelo proposto por De Masi, bem como as três dimensões do ócio criativo, as quais estão descritas em detalhes no livro homônimo, no qual o autor explica - em formato de entrevista - como imagina o futuro do trabalho, assim como argumenta filosófica e sociologicamente a sua tese.

De Masi classifica a nossa era como pós-industrial (ou digital), na qual o trabalho criativo é o único que triunfará, uma vez que praticamente todo trabalho manual já é, ou ainda será, realizado por máquinas ou computadores. Para exemplificar: a linha de montagem de um veículo, hoje, é realizada automaticamente, tendo alguns pouco profissionais supervisionando o processo. Em meados do século passado, uma linha de montagem exigia diversos trabalhadores braçais, cujo trabalho poderia ser realizado com a mesma eficiência por macacos, tamanho o nível de repetição e alienação que apertar parafusos, por exemplo, pode gerar.

Dentro desse quadro, no qual cada vez menos profissionais do tipo macaco são necessários, e com isso muitos tipos de trabalho tornam-se obsoletos, é que se encontra a justificativa econômica para o ócio criativo: uma empresa, ao estabelecer um novo processo que automatize a sua produção, terminará por não necessitar de todos os funcionários que dispõe. Quase que automaticamente, a eliminação do ser inútil profissionalmente torna-se um imperativo. Chamam isso de corte de pessoal, de modo que a empresa torne-se mais lucrativa e, dessa forma, consiga alimentar seus cães-acionistas cada vez mais e mais até o infinito da estupidez humana.

Uma outra opção é, ao invés de demitir, diminuir a carga horária, possibilitando - dessa forma - que todos possam fazer o mesmo trabalho, sobrando mais tempo livre para cada um: estaria aberta a janela para o porvir do ócio criativo! Afinal, justifica De Masi, o trabalho que se faz burocraticamente todos os dias nas empresas em 10 horas, poderia ser realizado em 5 com a mesma eficiência, e com a vantagem de ter pessoas mais motivadas e, portanto, criativas. Como suposição: se todo o trabalho que o cruel tipo homem necessite pudesse ser realizado por uma única pessoa, haveria duas opções: ou toda a população mundial estaria desempregada, ou o trabalho a ser realizado seria dividido de modo que todos pudessem contribuir e o mundo tornar-se-ia uma gigantesca teia de indivíduos condenados ao ócio criativo.

Considerando tal situação, o Ócio Criativo é atingido quando, na intersecção da figura ao lado, a transcendência do trabalho tal qual o concebemos hoje ocorre no plano referente ao número 7, que une trabalho, estudo e jogo (este último pode ser interpretado como lazer, diversão ou convivência). Desta forma, ao contrário do que se possa imaginar à primeira vista, o ócio criativo é, sim, uma filosofia de trabalho alternativa, e busca melhorar a qualidade do próprio trabalho realizado, além de se preocupar com a qualidade de vida do próprio sujeito, visto como um ser em sua totalidade, e não apenas como uma peça do grande tabuleiro que é o mercado de trabalho industrial.

Apesar de pequenos exemplos em contrário, ainda hoje trabalha-se tal e qual se trabalhava na sociedade industrial, com os mesmíssimos valores que hoje são obsoletos, onde o sujeito possui horário de início e término, precisa bater ponto, tem de cumprir carga horária (por vezes, contados os minutos!), a dimensão pessoal e emocional ficam do lado de fora, a sua liberdade, subjetividade e criatividade são assassinadas por indivíduos doentes, os chamados workaholic. Esse termo, que significa alcoólatra do trabalho, caracteriza sujeitos que trabalham até altas horas, priorizam o trabalho acima de tudo, raramente tiram férias (e quando isso ocorre não sabem o que fazer!), criam burocracia para justificar procedimentos e sua alta carga horária, dedicam-se como escravos à empresa que no futuro lhe dispensará como um sapato usado, sem utilidade, e terminará sua vida bestial agonizando em frustração por ter vivido e se dedicado tanto a algo que possui, no mínimo, valores existenciais questionáveis.

Eu gostaria de ver o ócio prosperar, e talvez trabalhar assim, porém sei que não será possível. Talvez as gerações vindouras consigam tal proeza! Porque, em verdade, para que serve a evolução do tipo homem, soberano animal que subjugou seus pares e a própria natureza, produzindo avanços tecnológicos dos mais variados tipos e nas mais variadas áreas de conhecimento, se tal evolução não o liberta para viver com mais prazer e tempo livre para coisas mais importantes que o trabalho?

Do contrário, meu alter ego sorrateiramente prefere continuar a invejar os cachorros, que tão bem conhecem a felicidade...

Namaste!