terça-feira, 15 de julho de 2008

As Cotas da Ignorância

Estava eu navegando despreocupadamente na Grande Rede quando li uma notícia a respeito de uma decisão judicial, a qual negava o direito legítimo de um estudante freqüentar uma Universidade Pública, mesmo tendo sido aprovado e estando dentro da faixa de vagas disponibilizadas para o curso escolhido. A causa para a negativa era a implantação de cotas raciais, que reserva um percentual de vagas para sujeitos pertencentes a raça negra (ou próximo a isso). Tal medida visa a garantir um equilíbrio racial no Impávido Colosso, ao mesmo tempo que busca resgatar uma dívida histórica com os negros impávido-colossensses, em função do tempo em que foram subjugados como escravos pelo cruel homem branco.

A idéia de cotas pode, em primeira análise, parecer ser justa. Justa, bondosa e promotora de justiça social! Ao que me lembro das palavras do filósofo Nietzsche: "...justa e bondosa como são justos e bondosos grãozinhos de areia com grãozinhos de areia!". Na verdade, devaneia meu alter ego, a cota racial é uma atitude racista que parte do pressuposto que o negro é inferior intelectualmente ao branco, e por isso precisa ser protegido. Pois o pseudo-argumento de que, oriundos de família em geral pobres e sem possibilidade de competir igualitariamente, os negros teriam a oportunidade de ingressar na Universidade pela porta dos fundos, isto é, através do paliativo do uso de cotas. Na verdade, questiono-me a mim mesmo: e toda a sorte de pessoas não-negras e pobres, que também não tem a prerrogativa de preparação adequada para ingressar na Universidade Pública? Mais justo seria existir apenas a cota para pobreza, pois do contrário segrega-se perigosamente a sociedade em função da cor da pele de seus indivíduos. As melhores intenções em geral produzem os piores resultados e ajudam a aumentar os conflitos sociais de uma sociedade já deveras doente e decadente.

Outro ponto problemático de tal lei é a definição de quem é e quem não é negro. Ora, o Impávido Colosso é um agrupamento humano no qual a maioria da população é miscigenada e a detecção de raça e cor é realizada de forma auto-declarativa. Um casal formado por um tipo branco e outro negro tem dois filhos, um com a pele clara e outra com a pele escura. Ambos estão inseridos no mesmo contexto social. Aquele que tiver pele clara poderá gritar em alto e bom tom que também é negro, visto que um de seus pais o é? E nem por isso será considerado menos ou mais apto intelectualmente e poderia utilizar-se da prerrogativa de cotas raciais.

São por estas questões que desafiam a lógica que meu alter ego acredita que o melhor para os povos é a autopreservação: mantendo a sua identidade racial, também mantém-se a sua identidade cultural, já que um conceito está intimamente ligado ao outro. A miscigenação é positiva entre raças de culturas semelhantes, pois renova o sangue e revilaliza a raça, porém a miscigenação indiscrimida gera confusão e resulta na morte dos povos, suas culturas e identidades.

O que de fato os pseudo-entendidos no assunto deveriam pensar é em investir no aumento do número de vagas nas universidades públicas. Mas como fazê-lo se não há recursos? Pois seja, a desculpa de que não existem recursos para tal é facilmente combatido com a assertiva de que é fácil criar novas vagas sem grande esforço: bastaria que os alunos pagassem pelo ensino que hoje obtém gratuitamente. Não na proporção de uma mensalidade de universidade privada e não para todos, mas para aqueles que podem pagar. Um estudante cuja renda familiar é de R$ 10 mil/mês pode perfeitamente pagar R$ 500/mês como retribuição ao ensino que recebe. Alguém com renda inferior contribui com uma quantia menor, ou mesmo com trabalho voluntário. Esta é revolução que o ensino necessita para promover a verdadeira justiça social, e não a limitada e injusta visão de mundo que pretendem aqueles que apoiam as cotas raciais em universidades públicas.

Tal medida é correta e justa e deveria ser adoptada nas universidades impávido-colossenssem. Mas o que vejo é uma gritaria em torno da "universidade gratuita" e mesmo aqueles que poderiam pagar querem ter um ensino sem oferecer nenhuma retribuição à instituição que o formou. Ora, cada um pagar aquilo que pode, de acordo com sua renda familiar, é algo que geraria receita e serviria para, não apenas dignificar o salário dos professores, quanto para qualificar a infra-estrutura em geral, além de possibilitar um aumento significativo do número de vagas. Ao invés de debater sobre questões verdadeiras, a sociedade debate-se em torno de pseudo-questões como a esdrúxula cota racial implantada em algumas universidades.

Namaste!

2 comentários:

James Mytho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
James Mytho disse...

Olá,

A política de cotas é algo polêmico, que não foi amplamente discutida pela sociedade. O seus defensores evocam um déficit dos ditos "negros" em relação aos tais "brancos" (muitos dos quais miscigenados). Existem ativistas que adotam posturas radicais, às vezes, com agressão física.

No meu entender, a reserva de vagas deveria se destinar a população carente - não importando a "raça" ou cor do sujeito. Todavia, em certos momentos, também consideraria a questão racial, especialmente, no tocante ao reconhecimento e respeito à diversidade étnica, cultural e religiosa. Algumas ações pontuais específicas para "negros" e "índios" podem ser feitas, pois há meios em que, inegavelmente, há poucos indivíduos de cor "escura", nomeadamente nos anúncios publicitários e produções audiovisuais em geral (mas está mudando um pouco).

Agora, na universidade pública o critério de entrada é tão somente passar numa prova, que em si mesma não tem condições de avaliar todo o potencial de um estudante. Contudo, não inventaram nada melhor que o vestibular ainda, e o mesmo vale para todos. Então, não vejo racismo nisto. O que impede alguém de passar é, simplesmente, a falta de instrução e a pobreza. Lembrando que a ignorância não tem cor, a pobreza também não, as debilidades humanas também não.

Não obstante, devemos sim estar atentos às questões raciais, considerando-as com a devida seriedade, mas sem extremismos que só embrutecem os cidadãos mais simples.