segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Máquina de Escrever

Assisti ao filme A Vida dos Outros, produção alemã vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2007. A história se passa na Berlim Oriental pré-queda do Muro, em meados dos anos 80. Um diretor de teatro é espionado pela inteligência do governo e passa a escrever um artigo sobre o fato do governo alemão ocultar dados sobre suicídios, após o suposto suicídio de um amigo e também diretor. Na verdade, esta falta de estatística, numa cultura com excelentes históricos estatísticos sobre quase tudo, é o indicativo de intenções obscuras. Um filme interessante, não só pela história em si, mas sobretudo por buscar uma visão humanista de seus personagens, independente do lado que estão. Bem diferente da tradicional estupidez dicotômica do cinema estadunidense.

O fato que a mim chamou-me atenção: o diretor escreve seu artigo utilizando uma máquina de escrever, trazida especialmente da Alemanha Ocidental, e cuja permanência em seu apartamento é mantida embaixo do chão, num suporte de madeira. Perceberam?! O meio para comunicação se mantinha oculto e era a hoje rudimentar e risível máquina de escrever!

Atualmente isso não faria o menor sentido, visto que temos computadores com infinitos recursos e a internet como catalisadora de toda e qualquer idéia que se deseja espalhar. E tudo isso em menos de 20 anos! Possivelmente o alto escalão da RDA, se pudesse antever o futuro, imaginaria o armageddon cá nos dias de hoje, com tamanha possibilidade de expressão.

No entanto, uma máquina de escrever era, em sua época, potencialmente mais perigosa que toda a internet hoje em dia. Como?! Qualquer um pode criar um blog ou site qualquer, servir um chá e esperar todos sentirem seus efeitos. A quantidade de informação disponível supera, e muito, a nossa capacidade de absorção. Assim, a nossa possibilidade de compreensão. Não há idéia que tenha impacto e precise ser combatida. Elas estão difundidas por aí, mas ninguém dá a mínima. Não são capazes de fazer muitas transformações e quem dera revoluções, tampouco mobilizar as pessoas.

Entre a censura de 1984 e a liberdade de expressão de hoje eu não sei dizer com precisão o que prefiro. Obviamente eu não poderia servir chá sob repressão (ao menos não com pimenta...), porém teria um sentido a alcançar, um inimigo em comum. Quando tiramos o elemento externo de nossos objetivos, muitas vezes, terminamos sem nossos próprios objetivos. Hoje, alguns se perguntam: quem é o inimigo? Quando na realidade a maioria não está nem aí para isso. Talvez, com sorte, possamos ver na economia de mercado um inimigo a ser combatido, e sua medíocre noção utilitarista e consumista do estar-vivo. Mas este é apenas um talvez. Ontem, um talvez poderia ser perigoso, assustador e revolucionário. Hoje, um talvez é apenas uma palavra que, sozinha, retorna aproximadamente 20.700.000 registros do Google.

Namaste!

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A Vida dos Outros (Leben der Anderen, Das, 2006)

» Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
» Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck
» Gênero: Drama
» Origem: Alemanha
» Duração: 137 minutos

» Sinopse: Em novembro de 1984, o governo da Berlim Oriental busca assegurar seu poder através de um cruel sistema de controle e vigilância sobre os cidadãos. O capitão Anton Grubitz busca ser promovido em sua carreira, com o apoio dos mais influentes círculos políticos da época, e para isso dá a um fiel agente do sistema, Gerd Wiesler, o encargo de coletar evidências contra o bem-sucedido dramaturgo Georg Dreyman e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland.

Fonte: http://www.cineplayers.com/filme.php?id=2829

Um comentário:

Adriana disse...

Nossa, filósofo, você tá tão espertinho e escrevendo tão bem!!! Eu sei, vc vai me odiar por esse comentário, mas eu tinha que fazer hehehehe

É incrível mesmo o poder da sociedade da informação, não é?

Mas acho mais real e mais plausível termos um inimigo íntimo a combater do que um sistema covarde que autoriza o abuso de poder.
Como assim um inimigo íntimo?
Veja: É responsabilidade nossa existir como sociedade civil organizada, com direito a ficar indignado e a promover mudanças. A gente tem que parar de olhar só pro próprio rabo e ver que os outros rabos têm problemas em comum a serem resolvidos. Não é não?

Participar de associação da classe trabalhista, manter a postura ética mesmo sabendo que existe roubalheira, consumir com consciência...

Exigir seus direitos, adotar uma política na sua empresa que reflita suas idéias revolucionárias...

Então, nós somos nosso próprio inimigo. E temos a vantagem que não precisamos nos destruir pra vencer a batalha, mas vencer o nosso conformismo.