quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Dossiê Virtual

Estava eu a navegar na grande rede quando avistei um iceberg e um devanear me ocorreu: como, hoje, somos dependentes da tecnologia que criamos. E como isso está escravizando o tipo homem. Pois, a promessa de que, ao ter máquinas e computadores que fizessem o trabalho sujo, o ser humano poderia dedicar-se a coisas mais nobres em sua existência, além do trabalho forçado e servil, parece-me que houve o efeito inverso. Trabalha-se cada vez mais em coisas como soluções e avanços tecnológicos, em nome única e exclusivamente de aumentar o lucro dos cães que governam as maiores corporações mundiais. A justificativa é o lucro? Tudo se explica pelo lucro, tudo é aceito pelo lucro... E a mais-valia de Marx jamais, em toda a história do homem, esteve num nível de discrepância tão alto.

Pensando nisso, há uma deturpação do conceito de evolução biológica: vendem a idéia de que o computador de última geração é a solução para todos os males do mundo! E que, o último sistema operacional lançado pela empresa do poderoso nerd de Redmond é algo inovador e espetacular! E que as ovelhas devem correr para atualizá-lo e, assim, acompanhar a evolução tecnológica, cujo ideal eu me questiono e ponho-me a pensar e aí muito louquejares ocorrem... Afinal, em nome de que ou quem ou o que seja a humanidade tem pressa e sede de velocidade e busca a todo custo avançar a um patamar superior, se há uma total carência de valores dignos que justificassem tal delírio estritamente comercial? Antes, não houvesse essa suposta evolução: ao menos haveria tempo para o cruel tipo homem pensar em si e olhar-se à distância, de modo a perceber a estupidez de sua existência, e ainda mais de seus pseudo-valores sobre o estar-vivo.

E, pensando em todo este estado de coisas, percebi que uma entre as empresas que valem mais que muitos países aparentemente tem uma visão diferente e oferece muitos serviços que agregam valor, como é bonito falar, gratuitamente. O chá aqui serviço neste espaço de voyeurismo pós-moderno só existe da forma como está apresentado porque tal empresa disponibiliza esse serviço. Além deste, vários outros, como correio eletrônico, agenda, central de relacionamentos, bloco de notas, fotos, documentos e vídeos online. Sem contar com o buscador de palavras, que na sociedade contemporânea representa o portal do conhecimento de tudo que há. E tudo isso gratuitamente, aparentemente sob a roupagem de empresa inovadora, que busca resgatar o espírito inocente do período pré-porcos da grande rede. Ao que meu alter ego questiona: isso é compatível com o espírito canino que reina no mundo, hoje?

Uma possível resposta pode ser obtida através do termo de uso do Google Mail (no original, em inglês):
Privacy. As a condition to using the Service, you agree to the terms of the Gmail Privacy Policy as it may be updated from time to time. Google understands that privacy is important to you. "You do, however, agree that Google may monitor, edit or disclose your personal information, including the content of your emails, if required to do so in order to comply with any valid legal process or governmental request" (such as a search warrant, subpoena, statute, or court order), or as otherwise provided in these Terms of Use and the Gmail Privacy Policy. Personal information collected by Google may be stored and processed in the United States or any other country in which Google Inc. or its agents maintain facilities. By using Gmail, you consent to any such transfer of information outside of your country.

É impossível não sentir um certo arrepio ao ler tais palavras. Imagina-te, caro leitor, como é fácil descobrir tudo sobre a vossa pessoa: toda a tua correspondência virtual, o teu ciclo de amizades e comunidades, a tua agenda pessoal, as tuas fotos, os teus vídeos, bem como tudo que procurares no oráculo da grande rede. E tudo isso é oferecido de graça para ti! No entanto, a qualquer momento, tais informações podem (e serão) usadas contra ti, caso algum representante do Monstro Frio julgue necessário. E ainda existem aqueles que se expõe cruelmente na grande rede, fornecendo ao mundo os pequenos detalhes de sua existência bestial...

O público e o privado possuem, hoje, uma tênue fronteira e é preciso estar atento, pois nunca a condenação à liberdade (como louquejou Sartre), com todos os apelos que o Grande Oráculo oferece, foi tão verdadeira. E por mais que idolatrem a sociedade democrática e sua suposta liberdade, parece-me cada vez mais verdadeiro que a natureza pervertida do homo sapiens sapiens tenda à selvageria numa busca boçal por velocidade, produção e inovação: falsas palavras que não ajudam a elevar o tipo homem a um estágio que se poderia considerar digno após 3 mil anos de evolução.

Namaste!

3 comentários:

"El Pibe" Soldá disse...

Poucas vezes li um texto tão coeso e coerente com a realidade que nos circula! Parabéns!

Impressionante como a metáfora de George Orwell é válida, retratando os cães, porcos e ovelhas da nossa sociedade. Como ovelhas, acabamos esquecendo a essência da vida: viver!

RafaelSD disse...

O maior problema não é a evolução, mas sim o campo onde a mesma ocorre. É normal e esperado que estejamos sempre tentando tentando evoluir para algum lugar.
Em um primeiro momento pode parecer interessante você simplesmente desfrutar o que já possue ao máximo, sem a preocupação de evoluir, mas com o tempo percebe que grande parte da sua "felicidade" vem das novas descobertas que você faz diariamente.

O problema maior que eu vejo, é que os passos dados em rumo a evolução são muito largos. Deixamos vários estágios sem serem explorados no processo, apenas para no futuro, olharmos para trás e perceber que deixamos de lado coisa que realmente nos realizavam, e simplesmente atropelamos, em busca de novas coisas.

Como o Tiago bem lembrou no comentário anterior, temos que nos preocupar com a essência, que é viver, e viver nesse caso, é aproveitar ao máximo todos os estágios da nossa evolução, sem pressa, sem atropelamentos...

Advocatus Diaboli disse...

Há uma passagem nos escritos do filósofo Nietzsche, quando este divaga a respeito de sua teoria do eterno retorno, que diz que devemos nos dedicar de corpo e alma a aquilo que nos dá prazer, a aquilo que para nós faz sentido. E que devemos buscar o próprio sentido da nossa existência, uma vez que ele não existe por si só.

Naturalmente para cada pessoa isso deve variar bastante. Mas o essencial seria viver em busca da plenitude e ao mesmo tempo, tentando entender qual seria a própria plenitude, visto que tudo voltaria de qualquer forma. E viver pura e simplesmente é uma das formas mais interessantes de se atingir a plenitude individual.

Abraços.