quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A Arte da Digestão Transcendental

Estava eu a circular num grande centro comercial quando, ao colidir o carrinho de compras que estava eu a utilizar contra o carrinho de uma alucinada consumidora, pude perceber o quanto tal supermercado diminuiu o espaço de circulação interna em prol de prateleiras e balaios com mais produtos à venda. As prateleiras convencionais já não se sustentam por si só; é necessário ocupar cada espaço, de cada corredor, com produtos que são empurrados ao consumir como se estivessem a gritar: compra-me! consome-me! devora-me! Tal situação fez-me perceber que o nível de intoxicação consumista atinge níveis elevados em tais estabelecimentos e que, na verdade, tal situação não ocorre apenas com produtos físicos, mas igualmente com aquilo que a indústria rotulou de entretenimento.

E, ao pensar em todo este estado de coisas, lembrei-me de festas, viagens e momentos de lazer, quando se consome até o momento através de máquinas digitais, pois tiramos cada vez mais fotografias, em geral na resolução mais alta que o produto suporta, mas não investimos em aprender a utilizar os recursos que tais máquinas oferecem e, não raro, ocorre uma inquetação quando alguém se propõe a buscar a melhor configuração antes do disparo. Ao querer registrar tudo o que se vive, acaba-se por não se viver o momento pura e simplesmente. De forma semelhante, desejamos acesso à internet com banda larga com velocidades de 3, 5 ou 10 megabits para poder baixar mais e mais coisas; mas nem tempo possuímos para consumir tudo que se está a baixar. Unidades de armazenamento lotadas de filmes que não veremos, de músicas que não escutaremos ou de livros que não leremos. Às vezes, a simples sensação de obter algo e possuir a ilusão de poder usufruí-lo a qualquer tempo torna-se mais constante que o prazer ímpar de descobrir as sensações e reflexões que estão ocultas em tais manifestações humanas que estão, ou deveriam estar, à margem da sociedade de consumo.

Meu alter ego acredita que a rejeição pragmática de tudo que é vendido pela indústria de consumo é a melhor estratégia para quem deseja manter-se desintoxicado do lixo que a sociedade de consumo produz diariamente. Vivemos num momento ímpar na história da humanidade, onde o conhecimento está disponível facilmente; o desafio, hoje, é por selecionar aquilo que deve ser visto, lido ou escutado, abrindo espaço para a digestão intelectual necessária a quem deseja não se tornar apenas um macaco consumidor de qualquer imundície que lhe seja oferecida.

Meu alter ego orgulha-se dos livros que não leu, dos filmes que não assistiu e das músicas que não ouviu. Meu alter ego quer redescobrir aquilo que meu ego pensa que já descobriu. Viver como alguém que está preso numa ilha deserta: o que levar consigo sabendo-se que não haverá nada mais a consumir ao longo dos anos? Pois estar em tal ilha é perceber a finitude da própria existência, longe dos ideais contemporâneos de consumo fútil e doentio. A simples idéia de consumir a mesma coisa por várias vezes repetidamente já causa asco na maioria dos mortais, pois seria necessário utilizar-se de uma habilidade que é contrária ao que a sociedade de consumo ensina: a arte da digestão transcendental, isto é, pensar nas razões do criador, nos motivos explícitos ou implícicos, nas coincidências e referências, pensar e repensar dez vezes a mesma questão, sem uma razão ou motivo que não seja o simples prazer de aprofundar-se no abismo existencial que tais criações remetem. Sem uma utilidade, um objetivo, uma razão, porém com o pleno sentimento de digerir adequadamente aquilo que se está, não a consumir, mas a contemplar.

Namaste!

4 comentários:

Fabio Rocha disse...

"Meu alter ego orgulha-se dos livros que não leu, dos filmes que não assistiu e das músicas que não ouviu."

Texto perfeito! Parabéns ao alter ego... ;) E siga assim em 2010!

Advocatus Diaboli disse...

Oi Fabio

Meu alter ego agradece a sua visita. Um abraço e bom 2010 para ti também.

taurus disse...

Olá Advocatus...

Legal este texto, importante para reflexão e mudança de atitude...
infelismente nos encontramos assim... cada vez mais presos a este sistema, manipulados por fios invisiveis como uma marionete, por mentes malignas...
em 2010 vamos procurar utilizar esta habiliade que voce nos ensina, "a arte da digestão transcendental".

Que voçê e todos os amigos do blog, tenham um excelente 2010, cheio de paz, alegria...
que o seu alter ego, continue assim, observando o cotidiano, extraindo coisas importantes a serem questionadas e nos escrevendo aqui...
Grande abraço,
taurus

Advocatus Diaboli disse...

Oi taurus,

Agradeço a tua visita e vamos torcer para que 2010 seja melhor que 2009 e pior que 2011 (ainda que meu alter ego me sacaneie e diga que tudo isso é bobagem, não existe bem e mal e a vida é uma piada de mau gosto).

Abraços