sábado, 15 de agosto de 2009

A Insustentável Leveza do Escafandro

Assisti recentemente à película francesa Le Scaphandre et le Papillon (O Escafandro e a Borboleta), que versa sobre a história de Jean-Dominique Bauby: um homem ordinário que é vítima de um acidente vascular cerebral e perde a totalidade de movimentos do corpo, à exceção do movimento de um olho. Nenhum dano sofre a sua mente, que permite ao sujeito ver e ouvir tudo que se passa ao seu redor, sem - no entanto - poder interagir com qualquer pessoa de forma mais efetiva.

Ao acordar e dar-se conta de sua situação fatídica, Jean-Dominique entra em profundo desespero. Uma enfermeira o ajuda a dizer palavras através do método binário sim e não, sendo uma piscadela para sim; duas, para não. As letras são soletradas uma a uma, em ordem de ocorrência da língua francesa. A primeira frase que Jean-Dominique olhetra é eu quero morrer. Com efeito, que razões deveriam existir para alguém em sua condição desejar continuar a viver? A morte para alguém já morto seria a melhor opção. Afinal, a vida implica em movimento e sem movimento não há vida. Tudo que se move é vivo, tudo que está parado é morto. Com o passar dos dias, porém, Jean-Dominique passa a aceitar a sua condição e, após estabelecer um canal eficiente, ainda que lento, de comunicação, decide escrever um livro, no qual divaga a respeito de sua condição e de seus mais profundos e belos sentimentos sobre a vida e tudo que há.

E, ao pensar e refletir sobre todo este estado de coisas, tive um devaneio no qual desejei por algum momento tornar-me um escafandro e vivenciar a experiência única de morrer estando vivo. Afinal, como espectador da vida poderia visualizar toda a beleza e singularidade de tudo que há, numa contemplação sem fim. Depois disso, um dilema passou a consumir-me e não consigo parar de nele pensar: é preferível viver estando morto ou morrer estando vivo? Isto é, é preferível viver uma vida ordinária, desperdiçando horas e mais horas em escritórios sem vida, cujo único objetivo é produzir riquezas de modo a aumentar o lucro dos cães-acionistas; viver na neurose da sociedade contemporânea, repleta de violência e superficialidade; viver na sociedade de consumo e tornar-se a si mesmo um produto descartável e medíocre, ou morrer ao perder todos os movimentos, mas poder apreciar a vida, ter todo o tempo do mundo, tornar-se para a vida um ser que observa e reflete sobre tudo que vê e sente e, como se isso não fosse o suficiente, poder escrever o livro mais inusitado da história do homem? Um livro que foi olhetrado por alguém que divagou por horas pensando em encaixar as frases que deveriam compô-lo. Letra a letra, sílaba a sílaba, palavra a palavra.

Tal dilema, embora esteja a me atormentar, é motivo de riso pelo meu alter ego. É que para ele esse é um dilema falso, pois estabelece duas condições que não são necessariamente contraditórias e não necessariamente conduzem ao mesmo fim. É possível, e muitas vezes necessário, ser um escafandro ao abster-se do movimento e contemplar pura e simplesmente tudo que há. Sem culpa, sem desejo e sem ansiedade. Por outro lado, ser um escafandro preso pelo sentimento de dever e submissão, vivendo uma vida sem a vontade de transcendência, em especial a transcendência pela arte, preso a valores falsos da sociedade de consumo, significa a morte antes de morrer. Nesse sentido, louqueja meu alter ego, Jean-Dominique viveu os melhores meses de sua vida quando esteve preso ao seu corpo, porém a sua mente, como uma borboleta, pôde voar através do pensamento reflexivo, da contemplação, da auto-crítica em relação ao seu estilo de vida anterior e, finalmente, da aceitação de sua condição de forma ímpar. É possível que o seu maior objetivo ao escrever o livro fosse transmitir a idéia de que o homem jamais deveria fazer ou aceitar uma situação cuja condição lhe impedisse de transcender e vivenciar o instante do estar-vivo com um sorriso próprio daqueles que jamais poderiam levar a vida a sério demais, daqueles que são descrentes de tudo, mas ainda assim buscam algum significado existencial para além da vida medíocre que é oferecida pela sociedade contemporânea.

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O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon, 2007)

» Direção: Julian Schnabel
» Roteiro: Ronald Harwood, baseado em livro de Jean-Dominique Bauby
» Gênero: Drama
» Origem: França
» Duração: 112 minutos

» Sinopse: Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) tem 43 anos, é editor da revista Elle e um apaixonado pela vida. Mas, subitamente, tem um derrame cerebral. Vinte dias depois, ele acorda. Ainda está lúcido, mas sofre de uma rara paralisia: o único movimento que lhe resta no corpo é o do olho esquerdo. Bauby se recusa a aceitar seu destino. Aprende a se comunicar piscando letras do alfabeto, e forma palavras, frases e até parágrafos. Cria um mundo próprio, contando com aquilo que não se paralisou: sua imaginação e sua memória.

Fonte: Adoro Cinema

4 comentários:

Fabio Rocha disse...

Belíssimo texto. Gostei da profundidade que percebeu no filme e para mim tinha passado depaercebida este sentido do dilema:

"Depois disso, um dilema passou a consumir-me e não consigo parar de nele pensar: é preferível viver estando morto ou morrer estando vivo? Isto é, é preferível viver uma vida ordinária, desperdiçando horas e mais horas em escritórios sem vida, cujo único objetivo é produzir riquezas de modo a aumentar o lucro dos cães-acionistas; viver na neurose da sociedade contemporânea, repleta de violência e superficialidade; viver na sociedade de consumo e tornar-se a si mesmo um produto descartável e medíocre, ou morrer ao perder todos os movimentos, mas poder apreciar a vida, ter todo o tempo do mundo, tornar-se para a vida um ser que observa e reflete sobre tudo que vê e sente"

Eu senti e vivi o mesmo dilema, e preferi largar a administração para ter mais tempo livre para filosofar, pensar, perceber melhor e sem pressa o mundo e a mim mesmo, e escrever meus poemas...

Abração

Advocatus Diaboli disse...

Oi Fabio, obrigado pelas palavras e parabéns pela decisão. Não é fácil abandonar alguma coisa, especialmente algo que é superdimensionado em nossa sociedade, que é a profissão. Meu alter ego inclusive devaneia que seria interessante se pudéssemos ter três ou mais profissões ao longo da vida e pudéssemos gastar entre 10 e 15 anos com cada uma delas. Preferencialmente em áreas distintas.

Abraço

Adriana disse...

Gostei muito do seu post, Claude. Muito sensível, certamente me fez ficar com vontade de ver o filme, e me fez ampliar os sentidos enquanto lia as suas palavras.
Acho que uma profissão pode ser também uma experiência contemplativa ou transcendente, pelas venturas e desventuras, pelo bem ou pelo "mal", nos leva a momentos transcendentes, e afinal certas privações também fazem aumentar a fome...
o que não justifica aceitar condições indignas, comsumistosas, é claro, estou falando sobre lidar com os inferninhos existentes nas escolhas de cada qual.
Mas dá pra viver e contemplar, senão esse seu blog seria um paradoxo impossível.
Obrigada por me dar o prazer de te contemplar, caro mio.

Advocatus Diaboli disse...

Adriana, fico contente que gostaste do devaneio. Quanto às profissões, a minha idéia é um combate ao ideal de "especialização", tão presente no mercado. A "minha" especialização seria horizontal, abrangente várias áreas de conhecimento e, porque não dizer, várias profissões. Não seria divertido ser piloto de avião dos 20 aos 35, engenheiro dos 35 aos 50 e músico a partir dos 50?