domingo, 24 de fevereiro de 2008

As Três Dimensões do Trabalho do Século XXI

Quem leu o meu devaneio a respeito do Ócio Criativo e ficou se questionando a respeito da viabilidade de um modelo alternativo em relação ao trabalho no século XXI, apresento a seguir a justificativa histórica que sustenta economicamente o modelo proposto por De Masi, bem como as três dimensões do ócio criativo, as quais estão descritas em detalhes no livro homônimo, no qual o autor explica - em formato de entrevista - como imagina o futuro do trabalho, assim como argumenta filosófica e sociologicamente a sua tese.

De Masi classifica a nossa era como pós-industrial (ou digital), na qual o trabalho criativo é o único que triunfará, uma vez que praticamente todo trabalho manual já é, ou ainda será, realizado por máquinas ou computadores. Para exemplificar: a linha de montagem de um veículo, hoje, é realizada automaticamente, tendo alguns pouco profissionais supervisionando o processo. Em meados do século passado, uma linha de montagem exigia diversos trabalhadores braçais, cujo trabalho poderia ser realizado com a mesma eficiência por macacos, tamanho o nível de repetição e alienação que apertar parafusos, por exemplo, pode gerar.

Dentro desse quadro, no qual cada vez menos profissionais do tipo macaco são necessários, e com isso muitos tipos de trabalho tornam-se obsoletos, é que se encontra a justificativa econômica para o ócio criativo: uma empresa, ao estabelecer um novo processo que automatize a sua produção, terminará por não necessitar de todos os funcionários que dispõe. Quase que automaticamente, a eliminação do ser inútil profissionalmente torna-se um imperativo. Chamam isso de corte de pessoal, de modo que a empresa torne-se mais lucrativa e, dessa forma, consiga alimentar seus cães-acionistas cada vez mais e mais até o infinito da estupidez humana.

Uma outra opção é, ao invés de demitir, diminuir a carga horária, possibilitando - dessa forma - que todos possam fazer o mesmo trabalho, sobrando mais tempo livre para cada um: estaria aberta a janela para o porvir do ócio criativo! Afinal, justifica De Masi, o trabalho que se faz burocraticamente todos os dias nas empresas em 10 horas, poderia ser realizado em 5 com a mesma eficiência, e com a vantagem de ter pessoas mais motivadas e, portanto, criativas. Como suposição: se todo o trabalho que o cruel tipo homem necessite pudesse ser realizado por uma única pessoa, haveria duas opções: ou toda a população mundial estaria desempregada, ou o trabalho a ser realizado seria dividido de modo que todos pudessem contribuir e o mundo tornar-se-ia uma gigantesca teia de indivíduos condenados ao ócio criativo.

Considerando tal situação, o Ócio Criativo é atingido quando, na intersecção da figura ao lado, a transcendência do trabalho tal qual o concebemos hoje ocorre no plano referente ao número 7, que une trabalho, estudo e jogo (este último pode ser interpretado como lazer, diversão ou convivência). Desta forma, ao contrário do que se possa imaginar à primeira vista, o ócio criativo é, sim, uma filosofia de trabalho alternativa, e busca melhorar a qualidade do próprio trabalho realizado, além de se preocupar com a qualidade de vida do próprio sujeito, visto como um ser em sua totalidade, e não apenas como uma peça do grande tabuleiro que é o mercado de trabalho industrial.

Apesar de pequenos exemplos em contrário, ainda hoje trabalha-se tal e qual se trabalhava na sociedade industrial, com os mesmíssimos valores que hoje são obsoletos, onde o sujeito possui horário de início e término, precisa bater ponto, tem de cumprir carga horária (por vezes, contados os minutos!), a dimensão pessoal e emocional ficam do lado de fora, a sua liberdade, subjetividade e criatividade são assassinadas por indivíduos doentes, os chamados workaholic. Esse termo, que significa alcoólatra do trabalho, caracteriza sujeitos que trabalham até altas horas, priorizam o trabalho acima de tudo, raramente tiram férias (e quando isso ocorre não sabem o que fazer!), criam burocracia para justificar procedimentos e sua alta carga horária, dedicam-se como escravos à empresa que no futuro lhe dispensará como um sapato usado, sem utilidade, e terminará sua vida bestial agonizando em frustração por ter vivido e se dedicado tanto a algo que possui, no mínimo, valores existenciais questionáveis.

Eu gostaria de ver o ócio prosperar, e talvez trabalhar assim, porém sei que não será possível. Talvez as gerações vindouras consigam tal proeza! Porque, em verdade, para que serve a evolução do tipo homem, soberano animal que subjugou seus pares e a própria natureza, produzindo avanços tecnológicos dos mais variados tipos e nas mais variadas áreas de conhecimento, se tal evolução não o liberta para viver com mais prazer e tempo livre para coisas mais importantes que o trabalho?

Do contrário, meu alter ego sorrateiramente prefere continuar a invejar os cachorros, que tão bem conhecem a felicidade...

Namaste!

9 comentários:

Adriana disse...

É, o ócio criativo mostra uma alternativa ao capitalismo e à competição...
Sabe, acho que isso tem a ver com uma postura com o mundo do trabalho, mas mais ainda com as relações entre as pessoas, pq o mundo do trabalho feito linha de montagem exclui relacionamentos criativos e saudáveis. E vai além, o ócio criativo questiona o sistema neoliberal, que pela pretensa liberdade de mercado, aprisiona as pessoas numa ansia de produção...
Ouvi dizer que num país da Europa, não me lembro qual, os trabalhadores demoravam pra terminar seus projetos, pra mto além do tempo que aqui se estipula, mas tb, quando terminavam, os produtos deles eram de uma qualidade muito boa... e eles tinham a carga horária de 6 horas, acho...
Enfim, quando leio seu post penso que é interessante cada um pensar na sua vida a quantas anda o ócio criativo, se consegue mesclar sem culpas o trabalho com conversas informais com os colegas, se se permite se desligar por uns instantes pra dar uma boa bocejada e desligar um pouco de uma questão preocupante (Einstein dizia: "Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se me revela.") um tempo pra descansar, numa hora que não o compromete o próprio trabalho - é claro, afinal, um cirurgião não vai parar uma operação no meio pra esticar as pernas... Mas ele pode se permitir uma carga horária saudável, entre outras coisas...
Um brinde!

Advocatus Diaboli disse...

Muito bom comentário. A citação de Einstein é perfeita: a criatividade tem suas próprias regras e não está à mercê dos delírios do pensamento industrial.
Um brinde!

RafaelSD disse...

Os valores em geral da sociedade é o que fazem as coisas serem assim.
É ridiculo falar, mas a verdade é que a sociedade em geral, mede o sucesso que determinada pessoa atinge na sua existência, pelo poder econômico que o indivíduo possue, ou trocando em miúdos, se você consegue embolsar muito dinheiro, você é bem sucedido, se você não consegue, sua vida é um fracasso.

Esse tipo de pensamento faz com que a pessoa que é um pouco mais limitada, tente atingir sucesso por insistência, colocando incontáveis horas no trabalho, pois ele acredita que esta é a única maneira que ele vai atingir o sucesso que a sociedade espera dele, no caso o sucesso financeiro.
Eu concordo plenamente com o que a Adri comentou, uma jornada de trabalho menor e mais produtiva, é um grande passo para se conseguir extrair o melhor de cada um.

Advocatus Diaboli disse...

rafaelsd, o capital por si só não possui valor algum, é uma simples convensão humana para classificar as coisas. O ato de criar algo, produzir (não no sentido industrial) coisas tendo uma dimensão mais ampla do trabalho é o que torna o trabalho nobre. Fazê-lo como mera peça do tabuleiro do pensamento industrial, tendo como única satisfação o capital recebido, é deveras degradante e nos coloca como espécie num nível abaixo de nossos parentes macacos.

RafaelSD disse...

Olha o respeito com teu primo mais velho!!!!
Quando eu fiz a constatação, não era em concordancia com a sociedade, mas simplesmente apontando o óbvio.
É claro que eu concordo contigo quando apontas que esse tipo de "valor" é uma maneira errada de encarar as coisas, alias, tentar contar sucesso em números, de uma forma geral, é totalmente irracional.
Mas não podemos negar que a verdade é, que somos de alguma forma reféns desse tipo de coisa.
É o tipo de situação que a solução tem que partir da parte de cima da piramide.

Advocatus Diaboli disse...

Salve, salve! O RafaelS eu até suspeitaria quem seria, mas o SD... o que quer dizer?

Sim, somos reféns deste tipo de situação, mas é possível existir uma mudança através do ócio, conforme justificou o De Masi, pelas condições econômicas e de trabalho a que estamos submetidos nos dias de hoje. Ninguém faria por caridade, mas sim por inteligência e sobrevivência. De certo modo empresas como Google e Microsoft já oferecem uma série de benefícios visando estimular a criatividade de seus funcionários, porque de certa forma entendem melhor as condições para o trabalho criativo.

Infelizmente sob um perspectiva global serão necessárias algumas décadas para uma mudança efetiva de comportamento. Provavelmente não veremos isso, mas se presenciar o início dessa mudança, já me dou por satisfeito.

Outra possibilidade é o tipo homem continuar a pensar exatamente como vem fazendo e as conseqüências serão as piores possíveis.

Abraços!

Rafael Schneider disse...

Agora uso um screen name mais apropriado e fácil de identificar.
Quando sai um post novo?

Advocatus Diaboli disse...

Acabou de sair do forno...

Abraços

James Mytho disse...

Olá,

Concordo plenamente com este artigo, digo-vos que também sou um praticante desse "ócio criativo", sendo um diletante em quase tudo o que faço. Todavia, desafortunadamente, ainda precisamos dar algum valor a acumulação de capital, porém da forma menos alienante possível. Penso que quando vivemos na dimensão do ócio criativo, podemos desenvolver melhor nossos talentos e, quem sabe, atingirmos uma autonomia pessoal que poucos conhecem.

Saudações !