sexta-feira, 24 de abril de 2009

A Arte que Transcende

Estava eu a navegar despreocupadamente na grande rede quando deparei-me com a notícia da condenação em primeira instância dos idealizadores do The Pirate Bay, sítio que funciona como um buscador de arquivos que utiliza a tecnologia BitTorrent e possibilita a milhões de pessoas em todo mundo compartilhar arquivos através da conexão direta entre usuários (também conhecida como p2p - peer to peer). Do lado oposto, a grande indústria de sanguessugas do entretenimento estadunidense (formada por Sony BMG, Universal, EMI, MGM, entre outros, etc.) continua a sua caçada na tentativa de impedir que as pessoas compartilhem aquilo que ela chama de produto e rotula de propriedade intelectual para restringir o acesso a arte produzida.

Ao ler a repercussão do caso, ocorreu-me pensar a respeito da arte. Então comecei a me questionar e perguntei a mim mesmo: a arte não é tudo aquilo que o espírito humano pode produzir cujo principal objetivo é a transcendência em razão da perplexidade do estar-vivo? E o artista não é aquele que ama mais a sua obra do que a si mesmo, pois dessa forma atinge a transcendência? Na nojenta sociedade capitalista, a arte é colocada numa caixa e rotulada como produto, cujo sucesso é proporcional às vendas que tal produto atinge. Com esse pensamento, a manifestação artística está limitada a um grupo restrito de indivíduos que podem pagar o preço para obtê-la. E não podem, segundo o direito intelectual, compartilhar com amigos o produto adquirido, devendo consumi-lo individualmente e, preferencialmente, sem alarde.

Considero o verdadeiro artista alguém que, por amar a sua obra mais que a si mesmo, transcende a estupidez ordinária do cruel tipo homem. E a sua obra é fruto de seu esforço, dedicação e inspiração. Merece, pois, ter seu trabalho reconhecido e remunerado. Quando milhares de pessoas têm acesso a tal conteúdo, ocorre o reconhecimento por excelência de todo verdadeiro artista. Triste a sociedade que não vive intensamente as manifestações artísticas e não valoriza seus artistas. Meu alter ego devaneia que uma sociedade sadia é aquela que reconhece e permite que seus artistas vivam e supram suas necessidades sem precisar corromperem-se na capitalização do homem e seus produtos. Um CD ou DVD que venda milhares de cópias é sinônimo de sucesso; porém, isso é apenas um dado relevante no universo capitalista e para quem acredita nesse modelo de sociedade. Uma músicas ou filme que seja compartilhado por milhares de pessoas é, igualmente, um sucesso. Nesse caso, exclui-se da arte o componente de produto, pois é apenas o desejo de indivíduos de transcender com o que é belo que motiva as pessoas a compartilhar entre si a arte que ajuda a sua transcendência.

A indústria de sanguessugas, em especial a estadunidense, quer limitar o acesso das pessoas e embutir a idéia que compartilhar arte é um crime, já que são as detentoras dos direitos autorais de tais obras. Muitas vezes, adquirem tais direitos dos próprios artistas, que sendo os criadores perdem a propriedade sobre seus produtos. Meu alter ego questiona-se se alguém pode ser dono de uma obra de arte, inclusive o seu próprio criador. Afinal, ninguém pode nada criar sozinho; toda inspiração e idéias que ajudam o artista a conceber o seu trabalho é resultado direto do meio que o sujeito está inserido; as suas experiências, vivências e sentimentos são fruto de sua existência em sociedade. Ora, jamais se ouviu falar que Platão, Newton ou Schopenhauer reclamaram direitos autorais sobre suas idéias. Nesse sentido, a sociedade contemporânea representa um modelo decadente no qual o direito autoral é um entrave na elevação da condição humana através da arte. Na verdade, pensamos que pensamos, pensamos que criamos e pensamos que somos donos de nossos supostos pensamentos. E por pensar assim, julgamo-nos detentores de obras de arte e decidimos quem pode e quem não pode acessá-la. Mas na realidade toda idéia que esteja manifestada dessa forma é de propriedade da humanidade, e não de indivíduos ordinários que nada criam e visam apenas ao lucro com a exploração do trabalho alheio.

Infelizmente nem toda manifestação artística pode ser reproduzível tão facilmente como uma poesia, um filme ou uma música; eventos que só se justificam no momento em que ocorrem, como peças de teatro ou apresentações de dança, ou ainda as artes plásticas, que produzem exemplares únicos. Para as demais categorias, no entanto, a Grande Rede representa um momento ímpar na história da humanidade por possibilitar o compartilhamento de arquivos entre amigos virtuais. Naturalmente, tal fenômero incomoda as grandes gravadoras e estúdios, pois lhes rouba o mercado da exploração artística e, assim, diminui seus lucros de forma astronômica. O Pirate Bay, assim como outros sítios do gênero, é temporário. Pode ser eliminado por decisões judiciais. O desejo, que deveria ser uma necessidade, de transcender através de arte é inato ao ser humano, e quiçá nunca se extinguirá. Uma vez que a Grande Rede proporciona os meios necessários à realização de tal desejo, não haverá nenhuma empresa, cão-acionista ou juiz de direito capaz de frustrar o direito de transcendência. Os pseudo-artisitas que apenas desejam fama e dinheiro estão condenados ao fracasso, pois o modelo no qual produzem a sua pseudo-arte está morrendo. Então, pois, que dêem espaço ao verdadeiro artista, aquele que transcende a si mesmo através de seu trabalho e não visa ao lucro acima de tudo, mas essencialmente à transcendência de si e de seus semelhantes. Este será recompensando e terá o seu reconhecimento através de outros mecanismos que não a pura e simples venda de produtos.

É falsa a idéia de que o artista morrerá de fome ao não poder vender sua obra em forma de produto; tal idéia é inclusive o maior argumento da indústria sanguessuga. Na verdade, a indústria remunera o artista com migalhas de centavos do grande bolo que é a venda de arte como produto, isto é, a produção em série de enlatados cujo objetivo é aniquilar o espírito transcendental da verdadeira arte. Compete também ao artista e a sociedade que compartilha livremente o resultado de seu trabalho encontrar um novo mecanismo de remuneração ao artista. Dessa forma, elimina-se o atravessador que nada cria e possibilita ao verdadeiro artista manter-se ativo com seu trabalho e, igualmente, um universo maior de pessoas podem acessar-lhe e contribuir para uma sociedade na qual a arte assuma um papel de agente transcendental e não de mero produto de entreterimento, como hoje ocorre.

Namaste!

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# O Artista, a Obra e a Grande Rede

"Ao assistir a festa estadunidense do Oscar 2008 resolvi fazer o que já tinha feito no ano anterior, isto é, selecionar alguns filmes para assistir. Naturalmente o único local onde consegui localizar tais filmes foi na Grande Rede, através de programas de compartilhamento de arquivos.
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segunda-feira, 30 de março de 2009

O Homem e a Mente

Estava eu a observar o lusco-fusco de um dia comum quando, ao organizar algumas coisas, deparei-me com um livro atribuído a Bhagwan Shree Rajneesh, também conhecido como Osho, chamado Além das Fronteiras da Mente. Comecei a lê-lo por curiosidade, já que nada conhecia a respeito de seu autor. Osho é considerado um líder espiritual para uns, revolucionário para outros. Em relação a suas idéias, a principal contida nesse livro é a idéia de não-mente e como tal idéia pode levar o cruel tipo homem ao caminho da iluminação.

Por não-mente entende-se o estado de consciência no qual a mente que possuímos é colocada em segundo plano e nenhum pensamento, sentimento, absolutamente nada, pode interferir nesse estado de consciência que se deseja obter. Para os budistas, alguém se torna um buda quando atinge tal estado. Sidarta Gautama é freqüentemente chamado de o buda, pois é a primeira pessoa que se sabe a ter atingido tal estado. Mas Osho não se considera um budista, nem tampouco segue religiões, pátrias, ideologias ou filosofias. Osho orienta seus seguidores a buscar apenas e exclusivamente o caminho da iluminação pessoal, utilizando como técnica a meditação, que é uma forma de se obter o esvaziamento da mente.

Tal estado de não-mente é deveras difícil de ser obtido. Nascemos sem mente e com um cérebro e a sociedade encarrega-se de moldá-la ensinando-nos todas as coisas do mundo, de modo a que nossa mente, que julgamos precisamente que seja nossa, fique tão ocupada com pensamentos, preconceitos morais, deturpações, sentimentos dos mais variados tipos etc. que não consiga sequer perceber que tudo que existe para o homem é apenas a forma como ele interpreta as coisas que os cercam. Isto é, o homem criou o mundo tal qual ele conhece; criou inclusive o conceito de deus e engana-se continuamente acreditando que deus criou o homem!

Um dia é definido com 24 horas, mas se sabe que, na realidade, o intervalo de tempo que se convencionou chamar de dia é apenas uma ficção, uma convenção, isto é, na realidade não existe um dia de 24 horas, mas apenas o nome e suas propriedades que a espécie humana julgou conveniente em determinado momento. A matemática e a lógica são, ambas, ficções a respeito da realidade das coisas, interpretações interessantes sobre determinados fenômenos, mas, ainda assim, não passam de interpretações. Assim como as religiões e seus deuses, juntamente com seus dogmas, não passam de interpretações, meras especulações a respeito do estar-vivo. Algumas são ridículas e patéticas, como o lixo demencial relacionado ao christianismo; outras mais interessantes e respeitáveis, como a idéia de luta contra o sofrimento, princípio essencial do budismo.

Meu alter ego vê semelhanças interessante entre o método de Osho de esvaziamento da mente e a contestação da realidade que cerca o homem, num esforço consciente que os verdadeiros filósofos devem fazer para atingir alguns de seus propósitos, sendo um dos mais importantes a destruição dos preconceitos morais, sociais, religiosos e científicos, num esforço contínuo de, em certa análise, também esvaziar a sua própria mente. No entanto, tal método busca, em essência, o término do sofrimento, partindo da premissa budista que viver implica em sofrer. Ora, para fazer isso, não há outro caminho a não ser a destruição do desejo, pois o sofrimento humano existe porque existe o desejo.

Zaratustra, o herói nietzschiniano que passou dez anos na montanha, vivendo com animais, retornou ao convívio dos homens ordinários anunciando o além-do-homem e não foi compreendido. Ora, o que Zarathustra lá fazia que não meditar e esvaziar a sua mente? Ambos, Osho e Zarathustra pretendem a superação do cruel tipo homem; cada um a seu modo, mas ambos envergonham-se do tipo homem e pretendendo superá-lo. Um, desprezando o desejo; outro, amando-o a cada momento. E neste ponto reside uma grande divergência com o fundamento budista do desejo: não estaria, o homem, ao matá-lo, matando também a própria vida? Pois a própria vida, como a conhecemos, não é puramente desejo? Não me refiro aos desejos fúteis presentes na sociedade capitalista, consumista e mecanicista dos dias atuais, que vê no dinheiro uma justificativa em si, que busca adquirir coisas a todo custo e nunca se satisfaz com aquilo que obtém, que vive miseravelmente com uma multidão de miseráveis e protege-se cada vez mais a si e ao seu patrimônio, e ainda julga que vive numa sociedade livre! Refiro-me aos desejos mais nobres do tipo homem, como o desejo do conhecimento, o desejo da arte, do belo, do riso, do sexo... Osho poderia dizer que tais desejos não são, de fato, desejos: são necessidades do espírito humano. Mas a linha tênue que separa o conceito de necessidade e desejo faz-me questionar freqüentemente a respeito da luta contra sofrimento; aceitar os desejos mais nobres como algo essencial à vida, aceitando o sofrimento inato que tal escolha representa, ou retornar ao estado animal de não-mente e, assim, evitar totalmente o sofrimento? Ao que me lembrei de algumas palavras de Zaratustra, no capítulo Da Visão e do Enigma:

"...Oh, meus irmãos, eu ouvia um riso que não era um riso de homem — e, agora, devora-me uma sede, um anseio, que nunca se extinguirá.

Devora-me um anseio por esse riso: oh, como posso, ainda, suportar viver! E como, agora, suportaria morrer!"

Namaste!

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# Das Interpretações que se Tornam as Coisas em Si
"Gosto de pensar que no estar-vivo precisamos de meia dúzia de conceitos bem fundamentados para poder pensar decentemente. Sim, poucas coisas que, naturalmente, não são valorizadas.
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terça-feira, 10 de março de 2009

O Câncer Cristão

Estava eu a navegar na Grande Rede quando deparei-me com uma notícia que dizia que uma menina de apenas 9 anos de idade sofreu aborto em um hospital impávido colossensse, visto que a mesma foi emprenhada de seu próprio padastro e, de quebra, concebeu gêmeos. Uma situação que por si só produz sofrimento a todos os envolvidos, em especial à menina grávida. Legalmente, em casos de estupro ou risco de vida à gestante, o aborto é autorizado por lei. Dessa forma, o hospital apenas cumpriu com o seu dever, salvando a menina e eliminando o produto de um ato criminoso e doentio, destes que somente o cruel tipo homem pode executar.

Pois juntamente com a notícia a respeito do trágico episódio, havia outra que dizia que a Igreja Católica, na figura asquerosa do arcebispo José Cardoso Sobrinho, condenou o procedimento realizado, alegando que o mesmo era um assassinato da vida e ia de encontro com as doutrinas católicas. Assim, excomungou médicos, a mãe e a própria garota. É que para o catolicismo não pode haver qualquer interferência humana que interrompa a vida de um ser humano, independente das circunstâncias.

Este é o primeiro ponto a ser analisado: como o cristianismo é patético e ridículo como religião. Tivesse tal fato ocorrido numa civilização budista, certamente não haveria alarde, pois para tal religião o elemento essencial a ser combatido é o sofrimento, em oposição ao cristianismo, que combate o pecado. E o próprio conceito de pecado, essa idéia falsa que foi utilizada por séculos para subjugar mentes fracas, é risível. O cristianismo e seus símbolos mais sagrados (bíblia, cruz, salvação, etc.) nada mais são que a representação de uma doença cancerígena contra a própria vida, visto que seus representantes estão doentes; afinal, somente um doente mental poderia aceitar o prosseguimento de tal gravidez, que culminaria com a morte da mãe e seus filhos. O cristianismo é contra a vida porque incuta nas pessoas idéias equivocadas a respeito da própria vida: o celibato produz religiosos pederastas, o jejum maltrata o corpo e enfraquece a mente e a idéia do pecado ajuda a criar uma sociedade doente: afinal, o bom cristão é aquele que peca e se arrepende. O cristianismo existe para que as pessoas pequem. O cristão que não peca não tem utilidade. Não importa quão grave seja o erro, basta o arrependimento para o sujeito ser salvo. E é através do jogo psicológico da culpa e aversão à vida que os cristãos produziram tantos estragos em dois mil anos de história. Hoje, felizmente, a sua força como instituição é bem menor que em outros tempos e possibilitou à menina de 9 anos realizar o aborto e, assim, salvar a sua própria vida.

Meu alter ego louqueja que as religiões são bengalas que ajudam os homens mais preguiçosos a viver uma vida que os afastem das dúvidas existenciais mais profundas que somente a espécie humana é capaz de conceber. É-lhe dado uma explicação, um caminho, uma orientação. Satisfeito com isso, ele pára de se questionar, de buscar outro caminho e simplesmente segue o rebanho acreditando naquilo que lhe foi dito. Nesse ponto, o budismo é mais digno que o cristianismo, pois o caminho que leva o indivíduo à iluminação (e não salvação, porque ninguém precisa ser salvo!) é um caminho a ser percorrido individualmente e apenas por vontade própria.

No impávido colosso, existem muitos católicos. E um número maior ainda de católicos não-praticantes. Essa é, aliás, uma farsa estúpida que é impossível de compreender. Como alguém pode ser algo que não pratica? Como um jogador de futebol pode ser jogador de futebol se não joga futebol? Como um piloto de avião pode ser piloto se não pilota aeronaves? Na verdade, devaneia meu alter ego, o católico não-praticante é um sujeito que não tem mais paciência para as tolices da Igreja Católica, mas é preguiçoso para ir adiante, buscar outro caminho e prefere ser e não-ser ao mesmo tempo, com uma falsidade alarmante.

É que, na verdade, toda mudança exige esforço e poucos realmente estão dispostos a questionar o status quo, especialmente quando o assunto tem caráter religioso. Porém, existem tantas coisas menos ruins a quem precisa acreditar em algo, em relação ao cristianismo, que me causa espanto que pessoas aparentemente lúcidas e sadias dêem alguma importância para o que pensa a Igreja Católica. Crer em deus ou em deuses, crer na ciência ou na filosofia, nos próprios homens; todos podem buscar um sentido para a existência e é saudável que assim o façam. Entretanto, tal conhecimento deve emergir de dentro do próprio indivíduo e ninguém pode fazer o trabalho pelo outro; na melhor das hipóteses, orientá-lo a respeito do caminho a seguir. O cristianismo não orienta, ele determina o caminho através de seus dogmas e todos que padecem desse mal devem procurar curar-se antes que o câncer atinja o nível mais elevado de sua existência.

Namaste!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Lost e a Humanidade

Estava eu a baixar um episódio da quinta temporada da série Lost quando, ao rever alguns episódios anteriores da famosa série televisiva estadunidense, um louquejar ocorreu-me: Lost perdeu a sua humanidade. E, em função disso, boa parte do meu interesse por ela também estava por perder-se. Afinal, os escritores optaram por tornar os personagens super-heróis à medida que a série está a avançar, esquecendo-se do seu caráter humano.

Lost, uma série cujo tema é por si só interessante e envolvente: um grupo de indivíduos cujo avião cai numa ilha misteriosa busca sobrevivência, enfrentando os diversos perigosos que tal ilha representa. Esse foi o elemento que norteou a série em suas duas primeiras temporadas. Nas seguintes, há uma tendência de desumanização dos personagens, criando um mundo mágico aonde tudo é possível, inclusive apelando para viagens no tempo, de modo a tornar a série mais fantasiosa e apelativa que verdadeira.

Ora, não há nada de glamoroso em encontrar-se perdido numa ilha deserta. Qualquer ser humano ao se ver em tal situação enfrentaria enormes dificuldades em sobreviver num ambiente inóspito. Muitos sucumbiriam em poucas semanas. Todo animal fora de seu habitat natural tem a tendência em sucumbir. Essa é uma realidade aceitável. A humanização dos personagens passa necessariamente pelo sofrimento constante de estar-se privado de uma vida civilizada. Em Lost, ao contrário, todos exibem um jeito blasé de ser que é incompatível com a situação que enfrentam: tornam-se mestres em manipular armas de fogo, sobrevivem dias inteiros sem alimentar-se adequadamente, dormem em qualquer lugar, caminham quilômetros tranqüilamente e raramente adoecem. Sem contar que alguns homens conseguem tempo e meios para aparar sua barba e cabelo perfeitamente e as mulheres, para tratar de sua aparência de forma semelhante quando estavam em seu habitat natural.

Ao experimentar ficar algumas semanas preso numa ilha deserta, qualquer ser humano desesperar-se-ia, sentindo os mais profundos sentimentos de medo, de dor e de solidão. Esse é o elemento humano que a série perdeu, tornando seus personagens super-heróis superficiais que tudo podem e nada têm medo. A exploração do drama psicológico de indivíduos perdidos tornaria a série muito mais interessante e mais próxima à realidade do indivíduo ordinário que lhe assiste. Lost tem seus próprios méritos, em especial pela forma ímpar de construção da sua narrativa e consegue salvar-se num oceano de besteiróis típicos do cinema estadunidense. No entanto, poderia transcender a si mesma não se tornando previsível como está a ocorrer. Perdidos estão os escritores e produtores da série, que esqueceram do caráter humano que foi justamente o que levou ao sucesso da mesma ao grande público.

Namaste!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A Busca da Felicidade e o Eterno Retorno

Estava eu a navegar despreocupadamente na Grande Rede quando, ao ler uma notícia a respeito do tão esperado capítulo final de uma novela impávido colossensse, não pude deixar de conter o riso ao ler tal notícia. Abrindo outro sítio, detive-me por alguns minutos e pude perceber que, na verdade, tal novela segue o mesmo padrão dicotômico que divide as pessoas em boas e más e as ações em certas ou erradas, assim como também o faz o cinema estadunidense. Mais tarde, assisti a 5 minutos de tal pseudo-produção artística e um louquejar ocorreu-me: como, no final, os bons vivem felizes para sempre e os maus pagam por seus atos, morrendo, sendo presos ou coisa do gênero.

Pois seja: tal fórmula tem origem em preconceitos morais que dividem a humanidade em duas: os bons, justos e corretos, e os maus, injustos e sem caráter. O cristianismo, que sustenta que existe um Reino dos Céus exclusivamente para os bons após a morte, constitui o alicerce por trás de tais pseudo-produções, já que a lição que se pode deduzir da trama é que o importante é ser bom, que no final o sujeito é recompensado por isso. Ora, se se imaginar que dos 150 capítulos de uma novela, em 149 os bons sofrem e apenas no último atingem a felicidade, poder-se-ia analogicamente supor que tais capítulos representam a vida interna do sujeito ordinário, e o último capítulo representa a sua morte e entrada no reino dos céus, para a felicidade eterna. Por isso, suponho, muitos gostem de assistir a novelas ou a filmes em função desse componente fantasioso, já que com isso podem manter viva a esperança de felicidade, confrontando a vida de sofrimento e dor de seu dia-a-dia com uma possibilidade de transcendência individual.

E, ao pensar neste estado de coisas, lembrei-me da teoria do Eterno Retorno, proposta por Nietzsche: trata-se de um soco no estômago de quem acredita em felicidade no pós-vida. Nela, tudo que existe sempre existiu, não há criador, o tempo é infinito, mas a totalidade de coisas que existem, não. Dessa forma, tudo retorna, todos os momentos da vida do sujeito, as coisas mais pequenas, as dores, o sofrimento, tudo retorna... e da mesma forma, na mesma ordem e seqüência. Tal pensamento, em síntese, nos diz que os 149 capítulos de nossa vida se repetem infinitamente no futuro, bem como já ocorreram no passado, por infinitas vezes. E, o melhor de tudo, é que não há o tal último capítulo. Sim, não há felicidade e tampouco o Reino dos Céus! Tudo que há é a vida mundana, a qual ainda há de se repetir até o infinito. Tal pensamento representa a morte da ilusão cristã, ou do nirvana, ou da justiça divina, ou qualquer outro elemento niilista negador da vida, confirmando que a existência, para o ser humano, precede e governa a essência, tal qual Sartre afirmava.

Então, após desligar a televisão do mundo-do-faz-de-conta do último capítulo, estava eu a pensar sozinho nas implicações de um eterno retorno quando, ao relembrar a biografia de Nietzsche, pensei comigo mesmo: será possível que um homem que tenha vivido miseravelmente em sua época, com uma saúde precária e aparentemente sem sucesso em suas relações afetivas e também sem o reconhecimento de seu trabalho, sabendo que passaria os últimos 10 anos de sua vida em estado demencial, escolheria - caso pudesse - retornar eternamente? Não apenas os momentos de genialidade e alegria, mas também todo o sofrimento que teve de suportar? Como alguém pode escolher sofrer eternamente e, no seu caso, viver infinitos anos em estado demencial? Tal visão não estaria muita próximo ao inferno cristão, que diz que a repetição de todo o sofrimento é eterna?

Sendo o idealizador de tal teoria, rapidamente imaginei que sim, que Nietzsche escolheria viver a vida que viveu da mesma forma, com toda a dor e decepções que lhe ocorreram. Para que isso seja possível, entretanto, louquejei que compete ao ser humano desvencilhar-se da dicotomia moral e do pensamento lógico-racional, incorporando o sofrimento como elemento ativo e inerente à condição humana: nascer é sofrer, viver é sofrer, morrer é sofrer. A vida implica em sofrimento e a aceitação de tal sofrimento constitui-se na verdadeira vitória do ser humano contra o absurdo de estar-vivo. O budismo erra ao combater o sofrimento através da eliminação do desejo; negar o desejo não é equivalente a negar a própria vida?

A felicidade tal qual os fracos a concebem, sem nenhuma dor, é a felicidade que somente os cães conhecem, pois lhes faltam a consciência de sua finitude. Nós, seres humanos, rejeitamos o rótulo de animal e, por isso, carregamos o fardo da consciência eternamente! Ao cruel tipo homem resta aceitar que tal felicidade de último capítulo é algo tão efêmero que, ao ser buscada como um ideal de vida, torna a própria vida infeliz! E é por isso, suponho, que ainda hoje tantos continuam a acreditar que, no final, serão felizes. Resta-lhes descobrir o que farão quando, supondo que isso seja possível, atingirem a tal felicidade que tanto buscam.

Tenho uma suposição e gosto de nela pensar: ao não buscar ser feliz, ao aceitar o absurdo existencial de forma honesta, a tolerância ao sofrimento aumenta; ora, quem tem a coragem de aceitar e até aprender a saborear o seu sofrer, não estará muito próximo de atingir a verdadeira felicidade? E, dessa forma, não quererá repetir tudo novamente, pois terá compreendido e aceitado a essência da vida e, especialmente, do absurdo existencial?

Namaste!

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Louquejares Relacionados

# Chá com Açúcar
"Nestes últimos dias, estava eu a pensar no tempo que dedicamos a certas coisas em detrimento de outras. E como isso influencia a nossa percepção daquilo que julgamos como realidade.
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# Eterno Retorno
"Amanhã, véspera de mais um feriado religioso, a atenção de boa parte dos habitantes do Impávido Colosso, e demais colossos que assim o fazem, volta-se para a lembrança daqueles que estão mortos.
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# A Felicidade como Princípio para uma Existência Débil
"Dando um início efetivo as divagações que aqui me proponho divago a respeito do que chamei no post intro de felicidade como princípio para uma existência débil. É senso comum para a maioria dos mortais que o objetivo final de sua existência resume-se no enfadonho: quero ser feliz!
"

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Sermão, o Petróleo e a Liberdade

"Eu sou um falso profeta e Deus é uma superstição."

Eli Sunday curvando-se a Daniel Plainview em Sangue Negro

Ao assistir recentemente ao filme Sangue Negro (There Will be Blood), um dos candidatos ao Oscar de melhor filme estadunidense de 2008, louquejei comigo mesmo a respeito das duas forças propulsoras da sociedade ocidental no século XX, que estão bem retratadas no filme: o fanatismo religioso e a ganância capitalista. Ambas forças convivem e estão entrelaçadas de forma radical no filme baseado na obra Oil!, do escritor Upton Sinclair. Sangue Negro é denso e envolvente, além de ser mais importante historicamente em relação a Onde os Fracos não têm Vez (No Country for Old Man), que venceu a categoria de melhor filme em 2008. Aliás, não raro, a indústria cinematográfica estadunidense escolhe filmes de qualidade duvidosa em suas premiações, obedecendo a critérios obtusos, em detrimento de outros que são efetivamente melhores, como foi o caso de Sangue Negro.

No filme, o capitalismo ganancioso está presente na figura de um explorador de petróleo, que não mede esforços em busca de acumulação de riquezas. Já o fanatismo religioso, na figura de um pastor de igreja, tendo como valor máximo a propagação de dogmas de sua crença, cuja conversão do maior número de fiéis é o elemento motivador de seu rebanho. Pois bem, ambas forças carecem de significado em si, negando categorimente a liberdade individual: no primeiro tipo, através da crença no capital e coisificação do homem, aproveitando-se do desespero humano para iludi-lo através da crença no acúmulo de riquezas a todo custo. No segundo tipo, pela profunda negação da própria vida, através de dogmas que determinam a vida que o sujeito deve levar, transformando-o em um fantoche negador da liberdade e preso a um sistema de crenças cujo objetivo é negar o sofrimento de saber-se em si, de aceitar a liberdade e incertezas da realidade que nos é apresentada.

E, ao pensar em todo este estado de coisas, lembrei-me do pensamento fundamental do existencialismo Sartriano, que diz: a existência precede a essência. Um pensamento aparentemente simples, mas que, se bem entendido, acarreta em uma série de implicações a respeito do estar-vivo. Quando se pensa num aparelho de telefone, ou num computador, tal idéia se aplica ao contrário, visto que, nesses casos, a essência precede a existência. Primeiramente o cruel tipo homem imaginou e projetou tais produtos para, atrás da combinação de diversos elementos da natureza e do conhecimento humano, poder produzi-los primeiramente no mundo das idéias, para depois efetivamente em larga escala para consumo, na forma como os vemos em seu estado final.

Para o ser humano, no entanto, tal conceito não é aplicável, visto que existimos primeiramente, e só depois construimos a nossa essência. Antes, o nada ou o absurdo, existe. Após o término de nossa existência, o nada ou o absurdo, existe. Assim, para que tal possibilidade não fosse verdadeira, deveria existia uma essência anterior à existência para dar forma ao tipo homem, tal qual o telefone ou o computador. Tal essência poderia ser interpretada de várias formas, sendo a principal delas a crença religiosa que diz que existe uma entidade criadora e cuja vida que vivemos possui um propósito em si, determinado por uma entidade divida. É sob tal alicerce que se baseia a fé, pois para um grande número de indivíduos, seria impossível suportar a vida tal como ela é de fato, isto é, um absurdo existencial sem sentido, que a transforma em sofrimento constante, amenizado pela salvação pela fé.

Para muitos, transferir a dor existencial para uma ilusão capitalista, elegendo o capital como um valor-em-si, é uma solução que, em verdade, nada soluciona... Afinal, nesse modelo de pensamento, cada vez mais alimentado pelo poder de grandes corporações e pelo sistema financeiro, o homem coisificado transforma-se em apenas uma peça na engrenagem que movimento a economia global, ou um tijolo no muro da ignorância daquilo que alguns ousam chamar de educação. Tal tijolo representa o indivíduo cerceado de sua subjetividade e liberdade, refém de um sistema que transforma a existência em algo decadente e ilusório, uma vez que carece de valor-em-si.

Na filosofia existencialista, a responsabilidade é o elemento fundamental, pois uma vez que não existem razões divinas para justificar o injustificável, compete ao indivíduo escolher aquilo que é melhor para si, assumindo os seus atos integralmente e, assim, excluindo de seu pensamento sentimentos de culpa ou arrependimento. É por isso que Sartre diz que estamos condenados à liberdade. Tal liberdade é, não raro, uma condenação, pois implica que o ser humano deve assumir-se a si mesmo e tudo que faz em sua vida: os pensamentos que lhe ocorrem, as pessoas com as quais se relaciona, as vivências que participa... Em resumo: a construção da obra de sua própria vida. Tal liberdade pode não ser suportada pelo cruel tipo homem, o qual tenderá a iludir-se com as farsas religiosas ou capitalistas. Aceitar a vida e o absurdo que é o estar-vivo e criar os seus próprios valores são as únicas formas de existir honestamente consigo mesmo, não incorrendo na negação acerca da liberdade que possuímos, nem tampouco na auto-coisificação existencial, isto é, em má-fé.

Namaste!

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Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007)

» Direção: Paul Thomas Anderson
» Roteiro: Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil!, de Upton Sinclair
» Gênero: Drama
» Origem: Estados Unidos
» Duração: 158 minutos

» Sinopse: Um mineiro fracassado e seu filho partem para uma pequena cidade, sonhando com a riqueza obtida pelo petróleo. Dirigido por Paul Thomas Anderson (Magnólia) e com Daniel Day-Lewis e Paul Dano no elenco. Vencedor de 2 Oscars.

Fonte: Adoro Cinema

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O Juizado Especial Cível como um Meio de Equilíbrio Social

"O homem é o lobo do próprio homem".

Thomas Hobbes

Estava eu a pensar na disparidade de forças entre o indivíduo comum e as grandes corporações quando, ao ouvir alguém reclamar de um serviço prestado de forma deficiente, esbravejando pois se sentia prejudicado e aparentemente sem muitas opções para resolver o seu problema, um louquejar ocorreu-me: como o ordinário tipo homem desconhece a força do Poder Judiciário! Em verdade, trata-se de uma das únicas possibilidades de equilíbrio de forças entre tais organizações e a sociedade.

Parto do princípio que, sempre que houver uma relação entre uma grande corporação e um indivíduo, tal relação é viciada e desigual por definição, já que o instinto predador e ganancioso das grandes corporações assim determina que se desenvolva tal relação. Torna-se mister esquecer as baboseiras que as propagandas sugerem e, quando dizem que o cliente é a razão do nosso trabalho, o cliente em primeiro lugar, ou ainda a sua satisfação é a nossa satisfação, mentem descaradamente e apenas justificam o salário dos publicitários que criam tais débeis campanhas, dando razão por completo, em relação à esposa de César, à máximo que diz: não basta ser honesta, é preciso parecer honesta. No caso, parecer já se torna suficiente para tais empresas...

É neste ponto que o Poder Judiciário mostra-se útil, através dos Juizados Especiais Cíveis (JEC, vulgo pequenas causas). Não que o serviço lá prestado seja excelente, pois no Impávido Colosso a lentidão de 3 a 12 meses para um julgamento em 1º e 2º grau é deveras excessiva; mas ao menos é menos lento que as causas comuns e não é necessário desembolsar um único centavo para ingressar com uma ação, desde que o montante requerido seja inferior a determinado valor. Naturalmente, ninguém enriquece ilicitamente em tais causas, porém faz valer o equilíbrio nas relações por vezes deturpadas entre indivíduo e grandes corporações.

Contratos de fidelidade, tarifas bancárias, débitos irregulares, relações de consumo em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor: excelentes oportunidades para uma visita a um JEC. Eu mesmo, influenciado pelo meu alter ego, já recorri a tais serviços em algumas oportunidades, tendo bons resultados para as situações que enfrentei. E até é possível divertir-se nas audiências, pois é cômico assistir a atuação de advogados (aqueles que se auto-intitulam doutores, mesmo tendo apenas o título de bacharel) e prepostos, representantes dos cães-acionistas, a defender muitas vezes o indefensável. Esses são um tipo de ator a representar um papel bestial, cujo fundamento essencial é a falsidade sob qualquer ângulo que se analise a situação.

Indenizações de até R$2.000,00 muitas vezes representam um custo menor a tais organizações que os honorários advocatícios e despesas administrativas que tais ações geram. Existe uma verba, suponho, especialmente destinada a estes fins. Como o percentual de pessoas que reclamam é ínfimo em relação ao universo de indivíduos que sofrem algum dano, tais empresas não dão a menor importância ao pequeno prejuízo que desembolsam, em face aos lucros exorbitantes que freqüentemente seus balanços demonstram, em especial no caso de Instituições Financeiras. O que ocorreria, pois, se todos impávidos colossensses utilizassem os serviços do Poder Judiciário para resolver situações nas quais ocorre algum dano, especialmente em suas relações de consumo?

Meu alter ego devaneia que uma mudança de postura seria necessária, uma vez que o lucro começasse a diminuir e os cães-acionistas sentiriam um rombo financeiro em seus balancetes. É provável, destarte, que mudassem sua atitude nas relações com o consumidor, pois como já disse uma vez a estultice capitalista, o bolso é o local mais sensível do cruel tipo homem. Muitos não recorrem a tais serviços jurídicos por preguiça ou ignorância: acreditam que desperdiçariam seu precioso tempo em um serviço que é lento e burocrático. Em outras palavras: submetem-se ao status quo e resignam-se diante dos eventos que ocorrem em sua vida. E esse é o pensamento característico do espírito de rebanho...

Para uma transformação social efetiva, devaneia meu alter ego, é necessário a ação individual contra os abusos das grandes corporações! O Poder Judiciário parece-me uma excelente oportunidade para quem está cansado de ser feito de fantoche por tais instituições e, além de eventuais ganhos pessoais, ajuda a desintoxicar as relações capitalistas do cruel tipo homem.

Namaste!