Num dia destes, entre o primeiro e o segundo cigarro do dia, fiquei estupefacto ao ouvir uma notícia dada por um repórter de uma rádio: uma fila enorme formou-se no Tribunal Regional Eleitoral de uma capital do Impávido Colosso, também conhecida como Capital Mundial da Carroça. É que era o último dia para regularização do título eleitoral e, como não podia deixar de ser, muitos impávido colossensses deixaram para a última hora para ficar quites com a Justiça Eleitoral e, assim, poder exercer o seu direito democrático de votar nas eleições vindouras.
Mas qual não foi o meu espanto quando o repórter perguntou a um dos transeuntes que lá estavam o que exatamente estava fazendo por ali - se tirando o primeiro título ou regularizando - e a resposta foi: "estou aqui acompanhando o meu amigo". Pois seja! O brasileiro adora uma fila, pensei. É um momento ímpar de confraternização entre os pares, cuja alegria pelo burburinho que se forma praticamente anula o tédio pelo demora bestial no meio da calçada.
E, ao pensar neste estado de coisas, um louquejar me ocorreu: como a idéia de liberdade é tida no mais alto nível pela sociedade contemporânea e como tal idéia nefasta representa um engodo que ajuda a manter a sociedade que se propõe a ser igual a ser, justamente, a mais desigual de toda a história universal do cruel tipo homem. O que os profanadores não dizem é que nunca a diferença entre os que mais possuem para aqueles que quase nada possuem foi tão grande. E, ainda assim, muitos louvam tal sociedade e tal sistema democrático que transforma um direito em um dever e diz que todos são iguais perante a lei. Na verdade, devaneia meu alter ego, o tipo homem é desigual por natureza, seja em âmbito cultural, psicológico e, especialmente, intelectual.
As eleições no Impávido Colosso são um circo, com direito a muitos palhaços e animais de toda ordem. Até a obrigatoriedade do ato de votar torna-se uma aberração para o próprio conceito democrático eletivo. E se eu julgar que não estou adequadamente preparado para votar em alguém, e quiser me ausentar de tal processo?! E se pensar em quantos indivíduos sem qualquer preparo intelectual para discernir entre a ideologia de um partido de um candidato ou outro?! Questões que não são tratadas como deveriam e, por isso, tornam o processo eleitoral tupiniquim digno de riso e lamento.
A verdadeira democracia encontrava-se na Grécia Antiga, berço da civilização ocidental, na qual os iguais eram tratados como iguais, e os desiguais, como desiguais. Nada mais justo, nada mais recto. Este conceito se confunde com o ideal aristocrático de sociedade, no qual indivíduos melhor preparados assumem maduramente o comando das decisões e por isso mesmo prestam a assistência necessária aos desafortunados e doentes de toda ordem; para lhes proteger e também a si mesmos. Porque, em verdade, quando se trata um desigual como um igual, dizendo-lhe que tem poder de decisão, quando claramente não tem nenhum, comete-se o ato mais covarde e que gera a mais profunda injustiça entre os homens.
Tais ideais não são bem-vistos no democrática sociedade contemporânea, a qual - com o auxílio da pseudo-ideologia estadunidense - tenta perpetuar-se por todo o mundo, não respeitando culturas diferentes, nem tampouco pensamentos opostos sobre a vida e o estar-vivo. Eu, influenciado pelo meu alter ego, há muitos anos que simplesmente anulo totalmente o meu voto e me rio daqueles que acreditam que este sistema de tal forma possa mudar o status quo, que hoje trata desiguais como iguais, e gera miséria, lixo e desigualdade em proporção jamais vista.
Namaste!
terça-feira, 13 de maio de 2008
segunda-feira, 28 de abril de 2008
O Rádio, o Terremoto e o Tempo
Num dia destes, na hora do lusco-fusco de um dia monótono, na qual as formiguinhas correm para seus lares acotovelando seus pares num sentimento bestial para chegar rápido, louquejei comigo mesmo a respeito da causa da infelicidade humana, ao mesmo tempo que escutava notícias sobre o terremoto que atingiu o Impávido Colosso há alguns dias.Meu alter ego pensou em quantos terremotos seriam necessários para mudar significativamente todo o estado de coisas tipicamente tupiniquim, que perdura já há mais de 500 anos! A destruição como condição para a construção, eis uma fórmula simples para se pensar a respeito da condição evolutiva do homo sapiens sapiens.
E, cansando de escutar coisas sobre a realidade do cruel tipo homem, mudei a estação do rádio e deparei-me com um clássico do rock progressivo: Time, do Pink Floyd. Pareceu-me uma ótima canção para aquele momento e passei a ouvi-la e deixei-me envolver pela música, pensando comigo mesmo: o momento a partir do término dos relógios a gritar abruptamente e início do som de batimentos cardíacos, devaneia meu alter ego, é onde encerra o desespero humano aprisionado pela interpretação de tempo que construímos, iniciando-se um momento reflexivo a respeito dos valores próprios que tal interpretação, continuamente falsa, ocasiona na vida ordinária que vive o tipo homem.
Com o fôlego mais curto e a cada dia mais próximo da morte: eis o pensamento de quem fica paralisado diante da percepção do tempo e da nossa incapacidade de alterar este estado de coisas. Por isso, meu alter ego inveja os cachorros, já que eles não negaram a sua condição animal e, ao contrário, elevaram-na a níveis existenciais mais toleráveis. A percepção do presente, livre de passado e futuro, é o único tempo que de fato existe. Mas a sensação que os anos ficam mais curtos, e nunca há tempo sobrando, é a causa do mais profundo sofrimento humano. Por isso, um pensamento de repetição de tudo que há significaria um suicídio para a maioria dos mortais, visto que pensam que só poderia existir felicidade no além-vida.
No final, não há - devaneio eu - maneira de mudar a percepção que temos do tempo a não ser através de um profundo mergulho no pensamento dionisíaco. Mergulho este que, em boa parte dos casos, tem como conseqüência inevitável a perda da razão, o que - para a nossa espécie - significa a perda da própria existência. À excepção de tal possibilidade, suponho que o único fato relevante é que toda a lua é, no final, completamente escura; nós é que desejaríamos que ela fosse diferente...Namaste!
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terça-feira, 8 de abril de 2008
Emolumentos da Ignorância
Estava eu a esperar por uma autenticação num destes estabelecimentos provenientes da era Industrial quando, na sonolenta espera, recebi por fim a autenticação que fui buscar e, junto com ela, o recibo que dizia: emolumentos. Num louquejar repentino, desnudando o verbete do seu significado intrínseco, pensei cá comigo mesmo que tal palavra servia bem para definir aquele lugar e também aquelas pessoas, cujo trabalho mecânico era estúpido demais para suportar e, como conseqüência inevitável, terminaria por aniquilá-las em absoluto até o precipício humano da mecanização!Para comprovar com fé pública de um burrocrata que um documento é verdadeiro torna-se imperativo tal autenticação. E, no breve intervalo entre a entrega do documento e recibo, freei o meu instinto libertador de atirar-me para fora daquele ambiente e fiquei sentindo a sonoridade da palavra fatídica emolumentos...
E, ao pensar em todo este estado de coisas, retardei a minha saída do recinto e parei-me para observar o ambiente e constatei que todos ali tinham em sua face uma expressão que me dizia: emolumentos! E, repetindo tal palavra, cortei-a e o novo som que me ocorrera era: emolumentos, emulamentos, emolu, emula, sim, e-m-u-l-e!!! Esta é a palavra dos novos tempos! Um software livre que transporta um mundo de bits da era digital, ao facilitar o compartilhamento de arquivos entre milhões espalhados pelo mundo!
E quais são as semelhanças entre a mula digital e a industrial? Ambas carregam o peso da sua era, porém uma está fazendo o serviço sujo através da inteligência humana, deixando para o homo sapiens sapiens a tarefa de divertir-se e obter conhecimento que beira ao infinito. A outra mula, formada por humanos, refere-se a uma realidade decadente, na qual perpetua-se a ignorância do cruel tipo homem.
E, ao finalmente sair do ambiente, acender meu cigarro e poder respirar ar puro, deixando as emulamentas para trás, não me senti triunfante, mas apenas sereno: pois ao menos meu alter ego conseguiu sobreviver a tal ambiente sem deixar-se contagiar por ele e, rapidamente, um breve poema nasceu ao sol infernal de final de março no Impávido Colosso.
Namaste!
____________________________________
O Emolumento e a Mula
Emolumentos,
Quantas mulas a carimbar!
Na fila sofrida,
O som da chamada é libertar!
Nem o rosto patético,
Nem o procedimento absurdo,
Far-me-á desisitr.
Finalmento é hora de ir embora
E o som do carimbo a emular
Não me faz delirar!
Porque a verdadeira mula sou eu
Que paga e sustenta
Estas emulamentas!
Alter Ego
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sexta-feira, 7 de março de 2008
O Artista, a Obra e a Grande Rede
Ao assistir a festa estadunidense do Oscar 2008 resolvi fazer o que já tinha feito no ano anterior, isto é, selecionar alguns filmes para assistir. Naturalmente o único local onde consegui localizar tais filmes foi na Grande Rede, através de programas de compartilhamento de arquivos. É dessa forma que um louquejar me ocorreu: como estes anônimos indivíduos, que nada ganham ao compartilhar arquivos e disponibilizar serviços, conseguem exercer o ócio criativo próximo de sua plenitude e também como o mundo industrial e os que nada criam estão a ruir porque o seu negócio está em extinção.
Não me refiro ao CD ou DVD comprado em mercado público a R$10,00. Neste caso, são apenas desafortunados vendendo para outros desafortunados cópias em geral de péssima qualidade, uma vez que nem todos podem suportar pagar por cópias ditas oficiais e legais. Refiro-me ao compartilhamento anônimo na Grande Rede, na qual é possível baixar o último capítulo da sua série favorita em poucas horas após o seu lançamento no país de origem, e com direito a legendas e cópia de boa qualidade. Pois somente um alienado poderia supor que alguém pagaria R$100,00 para comprar uma temporada de uma série qualquer, por exemplo, em que menos de 10% do valor termina no bolso do artista, do que buscar na Grande Rede gratuitamente e com a mesma qualidade. Além disso, há o fator tempo: num mundo globalizado, quem esperaria um filme ser lançado no seu país se já foi exibido em seu país de lançamento? Por que eu preciso esperar 6 meses para assistir algo que está a minha disposição facilmente?
A arte está num nível transcendental da criação humana, e possui valor por si só, ao contrário da maioria das tarefas cotidianas que fazemos repetidamente como macacos no dia a dia. Dessa forma, existe melhor retribuição para um artista do que ver o seu trabalho sendo apreciado por vários indivíduos, de diferentes culturas e em várias partes do mundo? A satisfação do outro é o melhor pagamento que se deveria buscar. Mas no mundo capitalista, onde um filme é avaliado por quanto arrecadou em bilheterias e derivados, o conceito de arte transforma-se num engodo comercial, enriquecendo pseudo-artistas e sanguessugas de toda ordem! Sensibilidade e capital são coisas que não combinam, e o artista que por princípio desejar como objetivo primário de seu trabalho obter muito dinheiro corrompe não somente a si mesmo, mas também o próprio conceito artístico e o elemento dionisíaco tão necessário no próprio processo de criação. Pois seja: deixemos os lucros gigantescos para os cães-acionistas, já que é a única coisa que de fato podem possuir, pois nada podem criar e por isso resta-lhes apropriar-se da criação alheia.
Existe mesmo uma cadeia de sanguessugas cujo objetivo é lucrar com a obra alheia. E, naturalmente, para estes quem obtém uma cópia gratuita de seus produtos é um criminoso, visto que atrapalha a fonte que alimenta o seu estado parasital. Distribuidores em geral, governo e seus impostos, patrocinadores, divulgadores, entre outros são uma parte que nada cria, e em nada contribui para a qualidade da obra de um artista. Obviamente me refiro aos verdadeiros artistas, aqueles que não precisam ganhar milhões de dólares e não se incomodam com a suposta pirataria, pois isso diminui seus altos lucros, nem tampouco aos enlatados criados por grandes corporações e cuja qualidade artística é deplorável.
Consumo baixar freqüentemente filmes, séries, documentários e músicas da Grande Rede. E hoje há uma infinidade de opções, graças ao trabalho voluntário de milhares de indivíduos espalhados pelo mundo. Tais indivíduos trabalham de uma maneira muito próxima ao ideal do ócio criativo, pois ao disponibilizar um filme e sua respectiva legenda, o sujeito está estudando um idioma estrangeiro, as ferramentas computacionais para gerar a própria legenda e os mecanismos de compressão para tornar viável a distribuição do filme; está exercitando o seu lazer, visto que não é pago para isso e ainda assim o faz com mais motivação do que se fosse; e, finalmente, está dispondo de algumas horas do seu tempo num trabalho que até não parece trabalho, mas o é em sua plenitude e se aproxima do ócio criativo, visto que há um elemento colaborativo intrínseco no produto gerado. Para o pensamento industrial, tal sujeito é um vagabundo e criminoso, que deveria arrumar algo útil para fazer da vida. Por outro lado, sob uma perspectiva diferente de trabalho, percebe-se que tal esforço produz uma relação de satisfação ímpar e o posiciona na vanguarda das relações de trabalho do século XXI.
O verdadeiro ator encontra-se no teatro; ao encarar o público de frente precisa improvisar e com isso vive aquele momento em toda sua plenitude. De forma semelhante, o músico virtuoso ganha notoriedade ao tocar ao vivo, pois assim mostra verdadeiramente o seu talento, técnica e grandiosidade. Estes sim devem ser recompensados pela sua contribuição em elevar a condição animal do tipo homem através da arte! Ao contrário das superproduções cinematográficas estadunidenses, ou mesmo dos pseudo-atores novelescos do Impávido Colosso, ou ainda dos pseudo-cantores fabricados pela mídia de massa, que em essência constituem lixo em nível demencial. Com auxílio da Grande Rede, devaneia meu alter ego, tendem a desaparecer porque não terão mais a fonte que alimenta seus delírios megalomaníacos de ganho de capital a todo custo.
Namaste!
Não me refiro ao CD ou DVD comprado em mercado público a R$10,00. Neste caso, são apenas desafortunados vendendo para outros desafortunados cópias em geral de péssima qualidade, uma vez que nem todos podem suportar pagar por cópias ditas oficiais e legais. Refiro-me ao compartilhamento anônimo na Grande Rede, na qual é possível baixar o último capítulo da sua série favorita em poucas horas após o seu lançamento no país de origem, e com direito a legendas e cópia de boa qualidade. Pois somente um alienado poderia supor que alguém pagaria R$100,00 para comprar uma temporada de uma série qualquer, por exemplo, em que menos de 10% do valor termina no bolso do artista, do que buscar na Grande Rede gratuitamente e com a mesma qualidade. Além disso, há o fator tempo: num mundo globalizado, quem esperaria um filme ser lançado no seu país se já foi exibido em seu país de lançamento? Por que eu preciso esperar 6 meses para assistir algo que está a minha disposição facilmente?
A arte está num nível transcendental da criação humana, e possui valor por si só, ao contrário da maioria das tarefas cotidianas que fazemos repetidamente como macacos no dia a dia. Dessa forma, existe melhor retribuição para um artista do que ver o seu trabalho sendo apreciado por vários indivíduos, de diferentes culturas e em várias partes do mundo? A satisfação do outro é o melhor pagamento que se deveria buscar. Mas no mundo capitalista, onde um filme é avaliado por quanto arrecadou em bilheterias e derivados, o conceito de arte transforma-se num engodo comercial, enriquecendo pseudo-artistas e sanguessugas de toda ordem! Sensibilidade e capital são coisas que não combinam, e o artista que por princípio desejar como objetivo primário de seu trabalho obter muito dinheiro corrompe não somente a si mesmo, mas também o próprio conceito artístico e o elemento dionisíaco tão necessário no próprio processo de criação. Pois seja: deixemos os lucros gigantescos para os cães-acionistas, já que é a única coisa que de fato podem possuir, pois nada podem criar e por isso resta-lhes apropriar-se da criação alheia.
Existe mesmo uma cadeia de sanguessugas cujo objetivo é lucrar com a obra alheia. E, naturalmente, para estes quem obtém uma cópia gratuita de seus produtos é um criminoso, visto que atrapalha a fonte que alimenta o seu estado parasital. Distribuidores em geral, governo e seus impostos, patrocinadores, divulgadores, entre outros são uma parte que nada cria, e em nada contribui para a qualidade da obra de um artista. Obviamente me refiro aos verdadeiros artistas, aqueles que não precisam ganhar milhões de dólares e não se incomodam com a suposta pirataria, pois isso diminui seus altos lucros, nem tampouco aos enlatados criados por grandes corporações e cuja qualidade artística é deplorável.
Consumo baixar freqüentemente filmes, séries, documentários e músicas da Grande Rede. E hoje há uma infinidade de opções, graças ao trabalho voluntário de milhares de indivíduos espalhados pelo mundo. Tais indivíduos trabalham de uma maneira muito próxima ao ideal do ócio criativo, pois ao disponibilizar um filme e sua respectiva legenda, o sujeito está estudando um idioma estrangeiro, as ferramentas computacionais para gerar a própria legenda e os mecanismos de compressão para tornar viável a distribuição do filme; está exercitando o seu lazer, visto que não é pago para isso e ainda assim o faz com mais motivação do que se fosse; e, finalmente, está dispondo de algumas horas do seu tempo num trabalho que até não parece trabalho, mas o é em sua plenitude e se aproxima do ócio criativo, visto que há um elemento colaborativo intrínseco no produto gerado. Para o pensamento industrial, tal sujeito é um vagabundo e criminoso, que deveria arrumar algo útil para fazer da vida. Por outro lado, sob uma perspectiva diferente de trabalho, percebe-se que tal esforço produz uma relação de satisfação ímpar e o posiciona na vanguarda das relações de trabalho do século XXI.
O verdadeiro ator encontra-se no teatro; ao encarar o público de frente precisa improvisar e com isso vive aquele momento em toda sua plenitude. De forma semelhante, o músico virtuoso ganha notoriedade ao tocar ao vivo, pois assim mostra verdadeiramente o seu talento, técnica e grandiosidade. Estes sim devem ser recompensados pela sua contribuição em elevar a condição animal do tipo homem através da arte! Ao contrário das superproduções cinematográficas estadunidenses, ou mesmo dos pseudo-atores novelescos do Impávido Colosso, ou ainda dos pseudo-cantores fabricados pela mídia de massa, que em essência constituem lixo em nível demencial. Com auxílio da Grande Rede, devaneia meu alter ego, tendem a desaparecer porque não terão mais a fonte que alimenta seus delírios megalomaníacos de ganho de capital a todo custo.Namaste!
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domingo, 24 de fevereiro de 2008
As Três Dimensões do Trabalho do Século XXI
Quem leu o meu devaneio a respeito do Ócio Criativo e ficou se questionando a respeito da viabilidade de um modelo alternativo em relação ao trabalho no século XXI, apresento a seguir a justificativa histórica que sustenta economicamente o modelo proposto por De Masi, bem como as três dimensões do ócio criativo, as quais estão descritas em detalhes no livro homônimo, no qual o autor explica - em formato de entrevista - como imagina o futuro do trabalho, assim como argumenta filosófica e sociologicamente a sua tese.
De Masi classifica a nossa era como pós-industrial (ou digital), na qual o trabalho criativo é o único que triunfará, uma vez que praticamente todo trabalho manual já é, ou ainda será, realizado por máquinas ou computadores. Para exemplificar: a linha de montagem de um veículo, hoje, é realizada automaticamente, tendo alguns pouco profissionais supervisionando o processo. Em meados do século passado, uma linha de montagem exigia diversos trabalhadores braçais, cujo trabalho poderia ser realizado com a mesma eficiência por macacos, tamanho o nível de repetição e alienação que apertar parafusos, por exemplo, pode gerar.
Dentro desse quadro, no qual cada vez menos profissionais do tipo macaco são necessários, e com isso muitos tipos de trabalho tornam-se obsoletos, é que se encontra a justificativa econômica para o ócio criativo: uma empresa, ao estabelecer um novo processo que automatize a sua produção, terminará por não necessitar de todos os funcionários que dispõe. Quase que automaticamente, a eliminação do ser inútil profissionalmente torna-se um imperativo. Chamam isso de corte de pessoal, de modo que a empresa torne-se mais lucrativa e, dessa forma, consiga alimentar seus cães-acionistas cada vez mais e mais até o infinito da estupidez humana.
Uma outra opção é, ao invés de demitir, diminuir a carga horária, possibilitando - dessa forma - que todos possam fazer o mesmo trabalho, sobrando mais tempo livre para cada um: estaria aberta a janela para o porvir do ócio criativo! Afinal, justifica De Masi, o trabalho que se faz burocraticamente todos os dias nas empresas em 10 horas, poderia ser realizado em 5 com a mesma eficiência, e com a vantagem de ter pessoas mais motivadas e, portanto, criativas. Como suposição: se todo o trabalho que o cruel tipo homem necessite pudesse ser realizado por uma única pessoa, haveria duas opções: ou toda a população mundial estaria desempregada, ou o trabalho a ser realizado seria dividido de modo que todos pudessem contribuir e o mundo tornar-se-ia uma gigantesca teia de indivíduos condenados ao ócio criativo.
Considerando tal situação, o Ócio Criativo é atingido quando, na intersecção da figura ao lado, a transcendência do trabalho tal qual o concebemos hoje ocorre no plano referente ao número 7, que une trabalho, estudo e jogo (este último pode ser interpretado como lazer, diversão ou convivência). Desta forma, ao contrário do que se possa imaginar à primeira vista, o ócio criativo é, sim, uma filosofia de trabalho alternativa, e busca melhorar a qualidade do próprio trabalho realizado, além de se preocupar com a qualidade de vida do próprio sujeito, visto como um ser em sua totalidade, e não apenas como uma peça do grande tabuleiro que é o mercado de trabalho industrial.
Apesar de pequenos exemplos em contrário, ainda hoje trabalha-se tal e qual se trabalhava na sociedade industrial, com os mesmíssimos valores que hoje são obsoletos, onde o sujeito possui horário de início e término, precisa bater ponto, tem de cumprir carga horária (por vezes, contados os minutos!), a dimensão pessoal e emocional ficam do lado de fora, a sua liberdade, subjetividade e criatividade são assassinadas por indivíduos doentes, os chamados workaholic. Esse termo, que significa alcoólatra do trabalho, caracteriza sujeitos que trabalham até altas horas, priorizam o trabalho acima de tudo, raramente tiram férias (e quando isso ocorre não sabem o que fazer!), criam burocracia para justificar procedimentos e sua alta carga horária, dedicam-se como escravos à empresa que no futuro lhe dispensará como um sapato usado, sem utilidade, e terminará sua vida bestial agonizando em frustração por ter vivido e se dedicado tanto a algo que possui, no mínimo, valores existenciais questionáveis.
Eu gostaria de ver o ócio prosperar, e talvez trabalhar assim, porém sei que não será possível. Talvez as gerações vindouras consigam tal proeza! Porque, em verdade, para que serve a evolução do tipo homem, soberano animal que subjugou seus pares e a própria natureza, produzindo avanços tecnológicos dos mais variados tipos e nas mais variadas áreas de conhecimento, se tal evolução não o liberta para viver com mais prazer e tempo livre para coisas mais importantes que o trabalho?
Do contrário, meu alter ego sorrateiramente prefere continuar a invejar os cachorros, que tão bem conhecem a felicidade...
Namaste!
De Masi classifica a nossa era como pós-industrial (ou digital), na qual o trabalho criativo é o único que triunfará, uma vez que praticamente todo trabalho manual já é, ou ainda será, realizado por máquinas ou computadores. Para exemplificar: a linha de montagem de um veículo, hoje, é realizada automaticamente, tendo alguns pouco profissionais supervisionando o processo. Em meados do século passado, uma linha de montagem exigia diversos trabalhadores braçais, cujo trabalho poderia ser realizado com a mesma eficiência por macacos, tamanho o nível de repetição e alienação que apertar parafusos, por exemplo, pode gerar.
Dentro desse quadro, no qual cada vez menos profissionais do tipo macaco são necessários, e com isso muitos tipos de trabalho tornam-se obsoletos, é que se encontra a justificativa econômica para o ócio criativo: uma empresa, ao estabelecer um novo processo que automatize a sua produção, terminará por não necessitar de todos os funcionários que dispõe. Quase que automaticamente, a eliminação do ser inútil profissionalmente torna-se um imperativo. Chamam isso de corte de pessoal, de modo que a empresa torne-se mais lucrativa e, dessa forma, consiga alimentar seus cães-acionistas cada vez mais e mais até o infinito da estupidez humana.
Uma outra opção é, ao invés de demitir, diminuir a carga horária, possibilitando - dessa forma - que todos possam fazer o mesmo trabalho, sobrando mais tempo livre para cada um: estaria aberta a janela para o porvir do ócio criativo! Afinal, justifica De Masi, o trabalho que se faz burocraticamente todos os dias nas empresas em 10 horas, poderia ser realizado em 5 com a mesma eficiência, e com a vantagem de ter pessoas mais motivadas e, portanto, criativas. Como suposição: se todo o trabalho que o cruel tipo homem necessite pudesse ser realizado por uma única pessoa, haveria duas opções: ou toda a população mundial estaria desempregada, ou o trabalho a ser realizado seria dividido de modo que todos pudessem contribuir e o mundo tornar-se-ia uma gigantesca teia de indivíduos condenados ao ócio criativo.
Considerando tal situação, o Ócio Criativo é atingido quando, na intersecção da figura ao lado, a transcendência do trabalho tal qual o concebemos hoje ocorre no plano referente ao número 7, que une trabalho, estudo e jogo (este último pode ser interpretado como lazer, diversão ou convivência). Desta forma, ao contrário do que se possa imaginar à primeira vista, o ócio criativo é, sim, uma filosofia de trabalho alternativa, e busca melhorar a qualidade do próprio trabalho realizado, além de se preocupar com a qualidade de vida do próprio sujeito, visto como um ser em sua totalidade, e não apenas como uma peça do grande tabuleiro que é o mercado de trabalho industrial.Apesar de pequenos exemplos em contrário, ainda hoje trabalha-se tal e qual se trabalhava na sociedade industrial, com os mesmíssimos valores que hoje são obsoletos, onde o sujeito possui horário de início e término, precisa bater ponto, tem de cumprir carga horária (por vezes, contados os minutos!), a dimensão pessoal e emocional ficam do lado de fora, a sua liberdade, subjetividade e criatividade são assassinadas por indivíduos doentes, os chamados workaholic. Esse termo, que significa alcoólatra do trabalho, caracteriza sujeitos que trabalham até altas horas, priorizam o trabalho acima de tudo, raramente tiram férias (e quando isso ocorre não sabem o que fazer!), criam burocracia para justificar procedimentos e sua alta carga horária, dedicam-se como escravos à empresa que no futuro lhe dispensará como um sapato usado, sem utilidade, e terminará sua vida bestial agonizando em frustração por ter vivido e se dedicado tanto a algo que possui, no mínimo, valores existenciais questionáveis.
Eu gostaria de ver o ócio prosperar, e talvez trabalhar assim, porém sei que não será possível. Talvez as gerações vindouras consigam tal proeza! Porque, em verdade, para que serve a evolução do tipo homem, soberano animal que subjugou seus pares e a própria natureza, produzindo avanços tecnológicos dos mais variados tipos e nas mais variadas áreas de conhecimento, se tal evolução não o liberta para viver com mais prazer e tempo livre para coisas mais importantes que o trabalho?
Do contrário, meu alter ego sorrateiramente prefere continuar a invejar os cachorros, que tão bem conhecem a felicidade...
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
A Ignorância, o Homem e a Montanha
Uma das muitas desvantagens de se viver no início de uma nova era, como hoje se vive o nascimento da era da informação, é justamente não conseguir comunicar-se adequadamente e obter respostas claras e precisas para questões ordinárias do dia-a-dia. É preciso uma dose cavalar de paciência para suportar a estupidez e falsidade da sociedade contemporânea. A solidão a um ou a dois, como sugeriu Nietzsche, pode ser a melhor resposta para quem deseja manter-se limpo na imunda sociedade a qual estamos submetidos nos pálidos dias de hoje.Vou relatar algumas situações que meu ego vivencia constantemente no trato com diversas companhias (que hoje, em verdade, são entidades abstratas formadas por cães e ovelhas e, eventualmente, porcos) para justificar os argumentos do meu alter ego. Nesse sentido, tenho de reconhecer que ele, e seus devaneios constantes, ajudam-me a suportar com certo bom humor as situações absurdas do dia a dia.
Vejamos: escrevo por e-mail para uma das grandes sanguessugas (ou sanguesunga, segundo o molusco presidencial) da telefonia Impávido Colossensse, que pelas tarifas adoptadas, enriquece a cada chamada efetuada pornograficamente os seus acionistas-cães. Minha dúvida é simples: como altero minha senha de acesso ao sítio da empresa? Mais simples que isso só mijar para frente. Pois seja, a resposta que obtive: "vá ao sítio e utilize a opção lembrar senha, que mostrará a dica de senha que você criou. Caso você ainda assim não se lembre de sua senha, nós lhe enviaremos metade (sic) de uma nova senha para o seu e-mail". Minha pergunta foi respondida? Não. Pior: quem respondeu sequer se deu ao trabalho de ler o questionamento por mim realizado. Se leu, não entendeu: o que equivale a não ler...
Em outra situação inusitada, uma instituição bancária que oferece serviços pela Grande Rede, especialmente de consulta de contratos de financiamentos, mostrou-se ímpar na arte da ignorância internética. Pois seja: além de restringir o horário de funcionamento dos serviços (como se a internet fechasse as portas as 20hrs e só abrisse novamente as 8h do dia seguinte!!!), todas as informações enviadas utilizam um canal não-seguro de comunicação de dados (protocolo http), quando se esperaria que houvesse um formulário seguro (https) para o acesso a estas informações. Pensei comigo mesmo: vou escrever e sugerir uma melhoria de segurança, isto é, aflorou em mim o espírito altruísta e fiz uma consultoria gratuita à empresa. O formulário de contato, como era de se esperar, também era inseguro. E pior: exigia vários dados cadastrais para o contato! Pois seja, falseei todos eles e simplesmente enviei a minha mensagem como sugestão. Resposta: não localizamos os dados de seu contrato, confirme-os para que possamos atendê-lo. Mas se eu os confirmar, estarei incorrendo em expor dados pessoais por um meio não-seguro!! O que fazer? Tentei novamente e a resposta foi a mesma, tal qual um macaco a repetir a mesma tarefa numa linha de montagem ao melhor estilo de Ford.
Em outro caso, a fabricante de um aparelho de som automotivo responde a um questionamento realizado através de e-mail com a seguinte resposta: nós temos técnicos especializados prontos a atendê-lo pelo número de telefone tal. Tudo bem, mas então por que oferecer um serviço de comunicação por e-mail que não funciona, apenas pelo bom e velho telefono? Questionei novamente a empresa, pois se eu fosse surdo-mudo, como obteria suporte? Naturalmente, uma empresa que vende dispositivos de áudio não se preocupa muito com a inclusão social de tipos que não escutam ou falam, imaginei eu para justificar tal ato. Porém, uma resposta ao meu novo questionamento, não ocorreu.
Todas estas patéticas situações diárias são um reflexo da sociedade decadente em que vivemos. Meu alter ego divaga que a vida nas montanhas, onde é possível ainda respirar ar puro, é o que melhor representa a liberdade do tipo homem. O regresso à condição animal e abandono do mundo tecnológico dominado por cães e porcos é o caminho mais transcendental que se poderia pensar atualmente. Eu me rio de tais idéias e concluo que já não consigo viver sem a tecnologia que utilizo em quase todos os momentos da minha existência. Em seguida, porém, me calo e meu alter ego sorri vitorioso, pois sabe que a suposta liberdade, tão celebrada aos quatro ventos actualmente, não passa de ilusão como, aliás, a patética sociedade contemporânea.Namaste!
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domingo, 13 de janeiro de 2008
A Soberania das Carroças
Estava eu a abastecer meu veículo num destes repositórios de combustível, que no Impávido Colosso representam uma fonte de tributação que beira ao infinito, quando uma situação inusitada ocorreu: uma carroça adentrou ao ambiente, e com toda a pompa possível, parou ao lado do calibrador e, com toda a calma do mundo, o seu condutor desceu e calibrou os seus pneumáticos. Esta é uma cena comum numa grande capital do Impávido Colosso, também conhecida como Capital Mundial da Carroça.Para o motorista comum, as carroças constituem um estorvo e a sua simples presença nas ruas é motivo de raiva e indignação. No entanto, ao sair de si e observar a questão no distanciamento necessário para poder formar um juízo com alguma precisão, louquejei que uma solução para o mundo pós-moderno está justamente no maior uso de carroças, em detrimento ao uso de veículos automotivos. E, nesse sentido, a Capital da Carroça está na vanguarda do desenvolvimento humano e sobre-humano do tipo homem.
Como!? Substituir os modernos veículos por carroças?! Muitas são as vantagens, devaneio eu: ajudaria a resolver alguns graves problemas mundiais, como a disputa por petróleo, que tantas guerras por território têm gerado; ajudaria, e muito, a reduzir a poluição planetária; sem contar que diminuiria drasticamente a quantidade de acidentes graves, que vitimam a todo ano milhares de impávidos colossenses. Aliás, vejo tantas campanhas da mídia tradicional (aquela cujo pensamento e disseminação assemelha-se a de um cavalo...) na tentativa de diminuir o que se chama violência no trânsito, porém, em nenhuma delas, a carroça é sugerida como solução para os problemas de tráfego cotidiano. E por quê isso? Há muitos interesses envolvidos... Imagina, caro leitor, se o homo sapiens sapiens simplesmente deixasse de comprar seus potentes veículos poluidores e assassinos e passasse a, convenientemente, experimentar o passeio agradável e ecologicamente correto de uma carroça? Isso não representaria uma revolução na maneira como vemos o mundo, os valores e o próprio estar-vivo?
Porque a pressa é um câncer e ir rápido de lá para cá, numa obsessão inútil de chegar primeiro, e com isso ganhar tempo, sabe-se lá para quê, é um mal que aflige o tipo homem neste início de século XXI. O uso da carroça teria o benefício terapêutico da lentidão, que ajudaria o tipo homem a ganhar perspectiva e inclusive confraternizar de modo mais efectivo com seus pares. Meu alter ego me sugere tais devaneios com alguma freqüência; eu, porém, sou covarde e prefiro o conforto do meu veículo, e sua rapidez de deslocamento. O que ocorreria, pois, se o alter ego de vários representantes do tipo homem louquejassem ao mesmo tempo a tal ponto de dominar em sua totalidade o seu ego e, com isso, subjugassem o automóvel em priorização da carroça?
Namaste!
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